O Hebraico Bíblico e a Linguística

Já falamos um pouco sobre a análise do discurso, mas quero voltar a um assunto mais básico: o uso da linguística, o estudo sistematizado de línguas, para a melhor compreensão do hebraico bíblico.

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Gn. 11.1: Toda a terra tinha uma língua e um vocabulário. At. 2.4: E todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, segundo o Espírito lhes concedia que proferissem. [minhas traduções]
No passado, o estudo do hebraico era mais caracterizado pela filologia, o estudo da história de uma língua (por exemplo: – De onde surgiu o verbo “ser” em hebraico, היה?, ou – Por que vemos algumas palavras segoladas revertendo a outras vogais no plural?). Hoje em dia, o estudo da língua está mais voltado para compreendê-la por si mesma, mais no seu contexto sistêmico do que no seu contexto histórico, o que acaba sendo muito útil para nós estudantes da Bíblia! Lembre-se que esse tipo de estudo, um estudo sincrônico, foi introduzido nos círculos acadêmicos pelo bigodudo Ferdinand de Saussure (veja o post sobre a análise do discurso). E é esse tipo de estudo que chamamos de linguística moderna. Tanto a filologia (ou linguística comparativa) quanto a linguística moderna podem ser úteis, mas usaremos mais a linguística moderna nos posts a seguir.

O que é a linguística?

Existe algo extremamente simples e também extremamente complexo em cada língua. Por exemplo, meu filho, que tem 2 anos e meio agora, consegue se comunicar muito bem – pede comida quando tem fome, diz quando tem sono, explica o que gosta e o que não gosta e, às vezes, conta histórias sobre coisas que ele viu ou fez durante o dia. Mesmo que seu domínio da linguagem seja limitado, em apenas dois anos e meio de vida, ele já consegue se comunicar, de forma básica, muito bem. Ele entende a linguagem naturalmente e progressivamente. E é assim para todos nós – nossas línguas maternas são fáceis – não pensamos duas vezes sobre o que significa “camisa” ou “árvore”.

Ao mesmo tempo, o sistema linguístico acaba desmotivando vários alunos antes mesmo do ensino médio, não é? Por exemplo, a maioria dos brasileiros entende a diferença na fala entre “ele mantém” e “eles mantêm”, mas teria dificuldade ao explicar a mudança na grafia. Ou que tal explicar o que acontece com o aspecto do verbo “namoricar” em comparação com o verbo do qual deriva, “namorar”? É claro que podemos formar frases com esses verbos, e distingui-los assim por meio de exemplos, mas explicar o sistema linguístico – e até mesmo o porquê dessas mudanças – isso já é mais difícil.

São essas as perguntas que a linguística faz. Veja abaixo alguns exemplos das perguntas mais comuns da linguística:

  1. Como uma linguagem codifica significado? (Aliás, o que significa “significado”?)
    • Ex: “rapaz” e “moço” podem significar a mesma coisa, mas será que sempre significam a mesma coisa? Em quais situações usamos uma palavra, mas não a outra?
  2. Como funciona a ambiguidade em uma língua?
    • Ex: “Você quer ficar comigo?” Essa frase pode significar, no mínimo, duas coisas: 1) uma pessoa pedindo outra para permanecer presencialmente com ela por um tempo, 2) uma pessoa convidando outra para um relacionamento (semi-)romântico.
  3. Qual é a importância de diferentes escolhas linguísticas ao se criar frases?
    • Ex: As frases abaixo têm ênfases diferentes, mesmo com os mesmos elementos:
      • Nado três vezes por semana no lago.
      • Três vezes por semana, nado no lago.
      • Nado no lago três vezes por semana.
    • Ex: As frases abaixo mostram formas diferentes de se comunicar a mesma coisa:
      • Me dá o arroz agora!
      • Passe o arroz.
      • Gostaria de um pouco mais arroz, por favor.

Já podemos ver então que existe uma simplicidade e complexidade no estudo da linguagem, não é? Vern Poythress explica que isso é porque a linguagem é uma parte integral do ser humano como um ser criado à imagem de Deus. Tanto a simplicidade quanto a complexidade da linguagem derivam do fato de que ela foi criada por Deus, em última instância, para possiblitar nossa comunhão com Ele. (Veja seu livro original em inglês que ele disponibilizou de graça aqui.)

“Beleza, Danillo. Legal. Mas como isso me ajuda com o hebraico?”

Bom, fique ligado, porque pretendo escrever um post por semana sobre os seguintes temas da linguística e dar exemplos de como eles nos ajudam no hebraico:

  1. Fonologia
  2. Morfologia
  3. Semântica
  4. Sintaxe
  5. Uso da linguagem (pragmática)

6 comentários sobre “O Hebraico Bíblico e a Linguística

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