O Hebraico Bíblico e a Pragmática

Tenho a bênção de ser pai de um casalzinho muito lindo: Joel, de dois anos e meio, e Laura, de 10 meses de idade. Ontem à noite estava brincando de pique-e-esconde com Joel e minha mãe, na casa dos meus pais. Estava conversando com meu pai, quando de repente ouvi a voz da minha mãe gritando de longe “Papai! Joel está escondendo! Vem nos encontrar!” Passei andando pelo jardim, chamando “Joee-eel! Cadê você?!” Ele, que escondia atrás do carro na garagem, respondeu “Estou aqui, Papai!” Nisso, minha mãe virou a ele, botou o dedo sobre a boca, e disse “Psiu! Psiu!” Eu continuei a chamá-lo, e de repente, ouvi uma nova resposta: “Estou aqui, Papai! Psiu! Psiu!”

Psiu!

Pois então, como Joel ainda está aprendendo a língua, aconteceram alguns mal-entendidos ontem. O problema não foi com sua interpretação da fonologia – ele compreendeu e até replicou o som “Psiu! Psiu!” de sua avó perfeitamente, sem nunca tê-lo ouvido antes… Tampouco foi na compreensão da morfologia, sintaxe ou até semântica da minha frase “Joel! Cadê você?” Falando simples e puramente da semântica dessa frase, ele a interpretou corretamente – ela normalmente é uma frase que faz uma indagação sobre a localização física da segunda pessoa do singular: Joel. Porém, ele não compreendeu a pragmática da frase.

O que é a pragmática?

Para compreender o que é a pragmática, precisamos primeiro compreender a diferença entre um significado padrão e um significado marcado. O princípio de padrão e marcação pode ser observado em qualquer sistema. Por exemplo, em futebol, todos os jogadores podem usar o pé para encostar na bola – esse é o padrão – mas um dos onze pode também usar as mãos para pegar e segurar a bola – o goleiro é marcado para isso. Em outras palavras, o padrão é a regra que todos seguem sem exceção, e a marcação é uma limitação ou regra adicional que outra entidade seguirá. Esse princípio pode ser utilizado para vários níveis do sistema linguístico. Veja alguns exemplos abaixo:

  • “Cavalo” é o padrão semântico para falar daquele animal que utilizamos para locomoção na roça. Quando vejo esse animal equino, sendo o ignorante urbano que sou, vou chamá-lo de cavalo sem saber se é macho ou fêmea. Se ficar sabendo depois que é macho, vou continuar chamando-o de cavalo, só que agora marcado para o gênero masculino. Já “égua” é uma palavra marcada para o gênero feminino. Se o cavalo for masculino, jovem, e pronto para criar, utilisarei a palavra “garanhão” para marcar esses conceitos. Se for feminina, jovem e pronto para criar, a chamarei de “potranca”.
  • Da mesma forma, a ordem sintática “o cavalo branco” segue o padrão sintático na nossa língua. Se eu disser “o branco cavalo”, marco o adjetivo com uma certa proeminência. “Ouviram do Ipiranga às margens plácidas de um povo heróico o brado retumbante”, na sua ordem extremamente anormal, é uma frase cheia de marcações sintáticas.
  • Morfologicamente, “égua” não é marcado (assim será o padrão), mas “éguas” é marcado para o plural. “Eguinha” é marcado para o diminutivo e “eguinhas” é marcado tanto para o diminutivo quanto para o plural.

Note então que o padrão não é necessariamente o mais genérico, mas aquele elemento que não é marcado em relação a outros elementos no mesmo nível.

Uma simples definição da pragmática é que ela faz a investigação sistemática da interação entre o significado padrão e o significado marcado em qualquer nível da língua. Mas peraí, significado não é o domínio da semântica? Sim, mas a semântica investigará apenas o significado padrão. Joel havia compreendido o significado padrão de “Joel! Cadê você?” mas não compreendeu o significado marcado para aquele contexto específico, no qual eu fazia uma pergunta retórica, apenas com o intuito de comunicar que estava procurando (ou ao menos fingia procurar) onde ele se escondia.

Como a pragmática me ajuda no estudo do hebraico?

O problema da pragmática é justamente que ela investigará tantos níveis diferentes da linguística. Existem vários ramos da pragmática, todos investigando como uma língua é utilizada (daí o nome) por aqueles que a falam e ouvem. Um dos principais ramos da pragmática, às vezes até contérmino com a mesma, é a análise do discurso. Ao notar como um autor utiliza uma ordem sintática diferente da normal, ou como uma sequência de referentes diferentes é utilizada num trecho de texto poético, ou como uma sequência de verbos no imperfeito consecutivo é quebrada por um verbo perfeito conjutivo, etc. o leitor começará a notar diferenças comunicativas, isto é, diferenças no uso da linguagem. Trabalho especificamente com um exemplo disso nos vídeos de Jonas 1.4-6, mas existem vários tipos diferentes de análises do discurso, e de estudos pragmáticos, até mesmo vários que ainda estão em desenvolvimento no ramo acadêmico.

A pragmática é, ao mesmo tempo, um estudo muito útil e um estudo incrivelmente difícil de se fazer e controlar, especialmente numa língua que não conhecemos. Veja só o que Moisés Silva já falava (em 1993) sobre a análise do discurso:

Para dizer a verdade, há uma confusão progressiva da minha parte sobre o caráter da disciplina. De fato, quanto mais leio, mais perdido me sinto; cada pesquisador parece seguir sua própria agenda, que, na maioria das vezes, é bastante abrangente. Tendo certeza que o problema não era o início da minha senilidade, adquiri a ótima e recente coleção de artigos editados por David Black, esperando esclarecer as questões de uma vez por todas. Porém, minha ansiedade apenas se agravou mais ao perceber que a análise do discurso é sobre … tudo! Ela aborda gramática e sintaxe, pragmática e lexicologia, exegese e crítica literária, isto é, um terreno fértil para mentes indisciplinadas.

(Moisés Silva, Discourse Analysis and Philippians, minha tradução)

Moisés Silva continua falando sobre como a Análise do Discurso pode, com muito estudo – e muito estudo sistemático – render um fruto maravilhoso e extremamamente útil. Mas fica aqui tanto um aviso quanto um incentivo para o nosso estudo do hebraico – quanto mais nos disciplinarmos no estudo da língua, mais poderemos compreender as nuances contextuais de acordo com seu uso. Porém, se negligenciarmos um estudo apurado e sistematizado, não poderemos alcançar aquele nível de maturidade linguística de poder discernir os “Psius!” da Bíblia. Atualmente, talvez você se sinta como uma criança de dois anos e meio ao utilizar o hebraico bíblico, mas fique tranquilo! Todos crescemos – se utilisarmos a língua!


Esse post foi o sexto e último numa série sobre o Hebraico Bíblico e a Linguística. Veja os demais posts na série:

 

 

 

6 comentários sobre “O Hebraico Bíblico e a Pragmática

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