Há algo de errado com as traduções que temos?

Ok. Acho bom já de início desmistificar a importância das linguagens bíblicas. O hebraico não é, contrário a rabinos judaicos medievais (Gênesis Rabá 38.4), a língua de Adão ou língua de Deus, utilizada para criar o mundo. Não existe uma sacrosanticidade nem do hebraico nem do grego. Deus poderia ter utilizado swahili, mandarim ou tupi-guarani tão bem quanto utilizou hebraico e grego.

Não obstante, Deus escolheu utilizar o hebraico porque essa era a língua dos judeus. Ele utilizou o grego porque essa era a língua franca nos tempos de Cristo. As línguas originais da Bíblia são escolhas de Deus ao intervir no tempo e no espaço da humanidade. Isto é: a Bíblia foi escrita em hebraico e grego (ah! e, é claro, aramaico!) porque Deus se acomodou, se adaptou, ao modo de falar da sua audiência em um tempo e geografia específicos.

Ótimo, legal, beleza, mas… se a Palavra de Deus foi escrita em linguagens contemporâneas, que hoje não utilizamos, qual é o problema com as traduções?

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Não é muito difícil aprender hebraico?

Já me acostumei àquele olhar meio-estupefato, meio-assombrado que recebo quando digo que conheço 7 línguas (3 vivas, 4 mortas – e as mortas nem valem tanto assim!). “O quêêê?? Você deve ser um gênio!” E aí acaba toda a discussão. Não vale dizer que não é tão difícil assim – “Ahn, mas é claro, pra você, inteligente assim, nada é difícil!” – ou que é apenas necessário estar disposto a ser diligente e trabalhar duro – “Aposto que gastaria o dobro – não, o triplo! – de tempo para aprender o mesmo que você!” – ou até mesmo admitir que já esqueci mais do que aprendi – [insira comentário estupefato/assombrado aqui]…

Babel_Doré
Gustave Doré La Confusion de Langues (1865)

Mas quer saber o que realmente acontece? Acontece que somos preguiçosos. É mais fácil acreditar que existe um suposto “dom de línguas” (não digo no sentido teológico), uma receita molecular no DNA de todos-a-não-ser-eu – seres humanos superiores a mim – que conseguem aprender as linguagens bíblicas, do que acreditar que, se eu tivesse o interesse ou a necessidade de aprender outra língua, poderia fazê-lo facilmente. Veja, por exemplo, o que diz o poliglota irlandês, no mundo secular, que agora vende seu método de aprendizado pela internet.

Minha esposa nasceu e cresceu na Índia, em Pune, Maharashtra. Ela fala inglês (a língua utilizada em casa e na igreja), marathi (a língua utilizada no dia-a-dia no seu estado), hindi (a língua necessária para ver filmes do Bollywood), e consegue se comunicar em outras duas. Agora, isso não é fora do comum no seu estado e em vários lugares na Ásia e África, é infreqüente o cidadão monolinguístico. Além disso, depois de se casar comigo, ela aprendeu o hebraico bíblico (não foi imposição minha! prometo!) e está aprendendo o português – as duas línguas porque ela quis, isto é, teve o interesse de aprender.

Contudo, quando digo que o hebraico não é muito difícil de se aprender, isso não quer dizer que é tudo um mar de rosas e que há um método perfeito para se aprender a língua em um mês. O aprendizado de qualquer língua requer imersão e contato constante. Assim, a língua hebraica acaba sendo uma amante ciumenta: ela rejeitará qualquer pessoa que não dedicar o tempo necessário para conhecer seu modo de se expressar (pronúncia e escrita), seus jeitinhos e neuras (gramática), ou que nunca parar para admirá-la como um todo (ex: a tradução de um texto bíblico completo). Então, a língua hebraica é difícil? Sim, mas não tanto quanto pensamos e vale à pena!