Há algo de errado com as traduções que temos?

Ok. Acho bom já de início desmistificar a importância das linguagens bíblicas. O hebraico não é, contrário a rabinos judaicos medievais (Gênesis Rabá 38.4), a língua de Adão ou língua de Deus, utilizada para criar o mundo. Não existe uma sacrosanticidade nem do hebraico nem do grego. Deus poderia ter utilizado swahili, mandarim ou tupi-guarani tão bem quanto utilizou hebraico e grego.

Não obstante, Deus escolheu utilizar o hebraico porque essa era a língua dos judeus. Ele utilizou o grego porque essa era a língua franca nos tempos de Cristo. As línguas originais da Bíblia são escolhas de Deus ao intervir no tempo e no espaço da humanidade. Isto é: a Bíblia foi escrita em hebraico e grego (ah! e, é claro, aramaico!) porque Deus se acomodou, se adaptou, ao modo de falar da sua audiência em um tempo e geografia específicos.

Ótimo, legal, beleza, mas… se a Palavra de Deus foi escrita em linguagens contemporâneas, que hoje não utilizamos, qual é o problema com as traduções?

Boa pergunta! A resposta vai mais ou menos assim: não há nenhum problema com as (boas e fiéis) traduções da Bíblia. Nós não pregamos um evangelho gnóstico ou massônico, onde apenas aqueles seminaristas (ou pastores ou acadêmicos) que conseguirem desvendar a verdadeira pronúncia do nome de Deus no hebraico original poderão ter acesso à sua graça. Boas traduções são, não somente uma ótima idéia, mas também uma necessidade. Não queremos elitizar a leitura da Palavra de Deus, mas ter certeza absoluta de que a igreja como um todo tenha acesso às Santas Escrituras. É essa a motivação de grupos como Wycliffe e ALEM.

Em certo sentido, foi isso mesmo que os autores do Novo Testamento fizeram. Estatíticas variam extensamente, mas teólogos e acadêmicos afirmam que várias citações do AT no NT vieram da tradução grega do AT que existia em seu tempo (a chamada Septuaginta). Em outras palavras: temos precedente bíblico para utilizar traduções!

Babel-fish
O peixe-babel, tradutor automático que, infelizmente, existe apenas na ficção do Guia do Mochileiro das Galáxias.

Mas… então… porque estudamos grego e hebraico? Só porque Deus escolheu utilizar o grego e hebraico? … Sim! Permita-me levar o argumento pela seguinte viela:

  1. Cada linguagem é única. Assim, existem palavras no português que não existem em outras línguas, como a palavra “saudade.” É claro, outra língua pode, por exemplo, dizer “o sentimento que se tem quando alguém ou alguma coisa está faltando,” mas isso é uma definição, e não uma tradução, da palavra “saudade.” Cada linguagem é única.
  2. Nenhuma tradução é perfeita. É claro que certas palavras podem ser traduzidas com um alto grau de correspondência (ἀράχνη = aranha = spider = मकड़ी, etc.). Mas quando falamos da tradução de um texto completo, nenhuma tradução conseguirá transmitir a idéia exata do original. Se pudessem, já não seriam traduções, mas transcrições. Vejam, como um exemplo disso, a comparação de traduções no post do prof. João Paulo.
  3. Cada tradução possui elementos de interpretação. Se cada linguagem é única, e nenhuma tradução é perfeita, segue que cada tradução ressaltará um aspecto de uma frase e esconderá outro. Assim, a escolha de qual aspecto ressaltar e qual esconder depende do tradutor. Ele precisa primeiramente interpretar o texto, e depois traduzi-lo.
  4. Aquele que lê a Palavra de Deus em uma tradução se põe à mercê de um tradutor/intérprete (ou, na maioria das vezes, um grupo de tradutores/intérpretes). É claro que existem traduções fiéis aos manuscritos originais, mas o simples fato de precisarmos distinguir uma tradução fiel de uma tradução ruim, ou infiel, já nos diz que existe um mediador entre nós e o texto.

Nós não estudamos o hebraico ou o grego porque desconfiamos dos tradutores, mas porque amamos tanto a Deus e à sua Palavra que, quando temos a oportunidade de encontrar o texto sem mediação, isto é, quando temos a oportunidade de aprender as línguas originais do texto, precisamos aproveitá-la ao máximo!

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