Análise do Discurso: O que é?

O título é um pouco enganador. Não vou falar sobre a área de análise de discurso como é conhecida nos ramos acadêmicos brasileiros. No nosso país, adotamos um sistema de análise francês direcionado, em grande medida, a estudos relacionados à mídia e suas ideologias (sócio-políticas, religiosas, filosóficas, científicas, etc.). Já no mundo dos estudos bíblicos, a análise do discurso está voltada, é claro, para o texto da Bíblia. Assim, a análise do discurso que nos interessa é mais informada pela linguística e hermenêutica do que pela filosofia.

Poderíamos falar de vários linguistas bíblicos antes de 1916 (os mais importantes ou mais influentes linguistas do hebraico antes da fase moderna incluem os Massoretas, Orígenes, e Jerônimo), mas a cena linguística mudou completamente com Ferdinand de Saussure e seu Curso de Linguística Geral. Saussure, na verdade, morreu em 1913, mas o curso que ensinou (apenas 3 vezes!) na Universidade de Genebra foi publicado através de uma restauração e compilação das notas de seus alunos em 1916.

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Ferdinand de Saussure

O bigodudo notou que a maioria dos linguistas no seu tempo estudavam a história de línguas, e não como funcionavam sincronicamente, isso é, num tempo determinado. Assim, o estudo sincrônico de uma língua não é o estudo do seu desenvolvimento, mas o estudo de como a língua funciona, da sua estrutura. Assim, de acordo com Saussure, qualquer linguagem é nada mais que um jogo de xadrez onde deve-se perceber quais regras diferenciam uma peça da outra:

[…] Todas as noções neste parágrafo não diferem essencialmente daquilo que chamamos de valores. Uma nova comparação com o jogo de xadrez no-lo fará compreender. Tomemos um cavalo; será por si só um elemento do jogo? Certamente que não, pois, na sua materialidade pura, fora de sua casa e das outras condições do jogo, não representa nada para o jogador e não se torna elemento real e concreto senão quando revestido de seu valor e fazendo corpo com ele. Suponhamos que, no decorrer de uma partida, essa peça venha a ser destruída ou extraviada: pode-se substituí-la por outra equivalente? Decerto, não somente um cavalo, mas uma figura desprovida de qualquer parecença com ele será declarada idêntica, contanto que se lhe atribua o mesmo valor. Vê-se, pois, que nos sistemas semiológicos, como a língua, nos quais os elementos se mantêm reciprocamente em equilíbrio de acordo com regras determinadas, a noção de identidade se confunde com a de valor, e reciprocamente.

É claro que, depois de Saussure, vieram vários outros pioneiros linguísticos. Hoje em dia, existem vários grupos (ou facções, dependendo de quem você perguntar) que explicam a língua de maneiras diferentes. Porém, até recentemente, poucos tentaram aplicar as noções estruturais de Saussure a uma língua além da unidade da frase (Saussure mesmo quase não aplicou seu sistema além da palavra!).

Assim, embora esses avanços linguísticos ajudaram (e muito!) nossa compreensão de certos aspectos de linguagens, eles negaram outras áreas importantíssimas de línguas. Por exemplo, de acordo com Noam Chomsky (pai da linguística generativa), a frase “você pagará por isso” é idêntica à frase “isso será pago por ti” ou “você irá pagar por isso”. Mas o que acontece, por exemplo, se a frase “você pagará por isso” fosse utilizada num filme de ação de Mel Gibson (tipo Payback)? E se a frase fosse utilizada por um dono de um vaso quebrado? E se a frase fosse utilizada num sermão sobre a justiça de Deus? Já vemos que a linguística generativa não pode responder questões de contexto. Isso é, do discurso no qual uma frase se encontra. A soma das partes nem sempre é igual à totalidade. Infelizmente, línguas não são uma equação matemática. Às vezes, 1+1≠2, ou, às vezes, 2+2=5.

Muitas vezes, como vimos no exemplo acima, a totalidade determina a parte. “Isso” na frase “você pagará por isso” pode ser o pecado, um vaso quebrado, ou um ato de violência que será vingado. “Você” pode ser um menino ou menina numa loja de porcelana, um assassino vingador, ou uma congregação quase adormecida. “Pagar” pode ser “aplacar”, “expiar”, ou “remunerar”. E não há como distinguir entre os significados fora do contexto.

O problema é que existem quase tantos contextos quanto frases! Precisamos estudar esses contextos e como eles se relacionam com frases, orações, verbos, substantivos, adjetivos, morfemas, fonemas, etc. É isso que chamamos de análise de discurso. O discurso pode ser um parágrafo, uma seção, um livro, ou até mesmo, em estudos bíblicos, o contexto canônico. Como a análise do discurso pode ser feita a vários níveis de discurso, precisamos de várias ferramentas. Desenvolveremos algumas dessas ferramentas em outros posts, como a análise léxica informada pelo contexto, a análise da ordem sintática de verbos hebraicos, a análise de referências a participantes, análises de gênero e de limites de discurso. Por enquanto, dê uma olhada nos vídeos de Jonas, onde já desenvolvemos o uso de algumas dessas ferramentas.

4 comentários sobre “Análise do Discurso: O que é?

  1. Pingback: Estudo Léxico: הלך no Hithpael – Isso é Hebraico!

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