Referência a Participantes (parte 1)

AVISO: nosso post hoje será bem mais especializado e acadêmico (leia-se chato!). A razão disso é que estou trabalhando com a interpretação de Isaías 66.18-21 para parte da minha tese, e decidi publicar uma postagem sobre esse texto. Falhei esse alvo (terei que escrever a parte 2 do post outro dia), mas espero que esse post sirva como uma boa introdução à referência a participantes. Como sempre, comentem abaixo ou no nosso fórum no Facebook se você tiver perguntas ou críticas!

O que é referência a participantes?

Quero explicar o conceito de referência a participantes com a letra de uma música do Legião Urbana, Dezesseis:

João Roberto era o maioral
O nosso Johnny era um cara legal

Ele tinha um Opala metálico azul
Era o rei dos pegas na Asa Sul
E em todo lugar

Acho muito legal que várias músicas do Legião eram estruturadas como narrativas. Na narrativa de Dezesseis, o participante principal, o protagonista, é João Roberto. Note que na primeira linha da música ele é apresentado como “João Roberto”. Já na segunda linha, o participante é apresentado como “Johnny”. Na terceira, temos um pronome que se refere ao participante, “Ele”. Logo na quarta, não há pronome ou substantivo próprio; apenas um verbo na terceira pessoa do singular. Cada uma dessas diferentes palavras (algumas delas em classes gramaticais diferentes) fazem referência ao mesmo participante.

OpalaAzul2

E… é isso aí! Agora você sabe o que é uma referência a um participante. É quando nos referimos a um participante de uma sequência informacional e linguística. O participante pode ser o protagonista (João Roberto), um coadjuvante, uma peça ou parte do cenário (por exemplo, o “Opala metálico azul”), etc.

Cada língua tem modos diferentes de se referir a participantes, e esses modos de referência codificam muita informação. Assim, podemos nos perguntar: porque será que Renato Russo começou falando sobre “João Roberto”, encurtou para “Johnny”, ainda mais para “ele” e finalmente incluiu a referência ao protagonista no verbo da quarta linha? Será que foi apenas para a métrica da canção ou existe algo em português que demanda a mudança da referência ao participante de tal forma? Para responder essa pergunta, daremos uma olhada na teoria de Estrutura da Informação abaixo.

Estrutura da Informação e referência a participantes

Você já parou para pensar sobre a relação que existe entre nossos pensamentos e nossas palavras? Já tentou descrever esses pensamentos sem palavras? Será que a linguagem é necessária para cognição ou existe uma certa representação mental que está por detrás da nossa fala? Essas perguntas são epistemológicas, isso é, perguntas sobre como podemos validar ou certificar nosso conhecimento: como você sabe o que sabe?

Informação estruturada

Contudo, antes que divaguemos em intermináveis perguntas filosóficas, permita-me voltar à primeira pergunta: qual é a relação entre nossos pensamentos e nossa fala? Certos ramos da linguística afirmam que todos temos representações mentais de uma certa ideia, e que nosso modo de falar é determinado não apenas pela representação mental do locutor, mas também a representação mental que ele imagina que seu ouvinte terá. Assim, as frases e linguagem do locutor seguem uma certa estrutura da informação (veja o livro de Knud Lambrecht sobre isso) para comunicar sua representação mental ao ouvinte da melhor maneira possível.

Já notei no post sobre linguística que temos diferentes maneiras de expressar o mesmo conteúdo. Contudo, a forma em que expressamos esse conteúdo é importante. Hoje de manhã, minha filha (de dois anos) viu o caminhão de lixo levando nosso lixo e falou, “Papai, mas e se… o que… se ele levou a lixeira de nós… para não ter mais nós!” Estou acostumado com sua maneira de falar e entendi que ela estava com medo que o caminhão roubaria nossa lixeira. Não corrigi sua maneira de falar, mas respondi de uma forma mais sucinta: “Não, Laura, ele não levou nossa lixeira. Só o lixo.” Ela entendeu o que disse e respondeu, “Não a nossa lixeira?” Note o que aconteceu aqui: ela aprendeu um uso do pronome possessivo e viu que era mais vantajoso usar a palavra “nosso/a” do que as duas palavras “de nós”. Em outras palavras, ela aprendeu um pouco mais da estrutura da informação da nossa linguagem, expressando o mesmo conceito de forma mais clara, inequívoca, e suave. A estrutura da informação de qualquer linguagem portanto tentará reduzir ao máximo qualquer redundância, agilizando e simplificando assim a comunicação.

Estados de ativação mentais

Linguistas que estudam essas coisas postulam que a mente humana tem três estados cognitivos para a ativação de certos conceitos: 1) ativo, 2) acessível, e 3) inativo. No caso, antes de ouvir sobre João Roberto, o conceito desse menino era inativo – você não conhecia quem ele era. Depois da primeira linha da canção acima, Renato Russo ativou o conceito desse “maioral” na sua mente. Na segunda linha, ele continua ativo com o apelido “Johnny,” e assim por seguinte. Depois das linhas acima, não vemos mais o nome de Johnny por um bom tempo – o pronome “ele” basta. Contudo, com o passar do tempo (alguns segundos apenas), o estado cognitivo de João Roberto passa de “ativo” a “acessível”. Em outras palavras, o ouvinte sabe quem é João Roberto, mas está prestando atenção em outros aspectos e outros participantes da estória. Assim, é necessário reativá-lo na mente do ouvinte na linha 14 como “Johnny”: “Johnny andava meio quieto demais / Só que quase ninguém percebeu”. Sei que parece uma pergunta meio boba, mas tente responder linguisticamente: por que não usaram apenas o pronome “ele” nessa linha? A resposta é a seguinte: porque a história fez um desvio, mencionou que “Mas de uns tempos prá cá / Meio sem querer / Alguma coisa aconteceu”, sem se referir diretamente ao João Roberto. Era necessário, portanto, reativar o protagonista, mas não de um estado inativo (se fosse de um estado inativo, seria necessário o nome completo e algumas informações sobre ele). Contudo, essa não é a única coisa que diferentes referências a participantes conseguem efetuar. Veja abaixo uma explicação mais completa sobre esse assunto.

O que referências a participantes realizam?

De acordo com Dooley e Levinsohn, um esquema de referência (isso é, uma determinada forma de fazer referência a um participante no discurso) em qualquer linguagem realizará três tarefas:

  1. Tarefa semântica: identificar o referente sem ambiguidade
  2. Tarefa discurso-pragmática: sinalizar o estado de ativação (como vimos acima) e a proeminência do referente ou sua ação. A proeminência de um referente é o nível de topicalização ou foco que esse referente tem num determinado discurso.
  3. Tarefa processiva: suavizar a entrega de informação de modo “empacotado”; isso é, facilitar a transmissão de informação

Poderíamos falar mais sobre isso, mas isso aumentaria o tamanho e complexidade do nosso post ainda mais…. Mas se você tiver perguntas, faça-as nos comentários abaixo ou no nosso grupo no Facebook!

O que tudo isso tem a ver com hebraico?

Como esse post já está muito longo, terei que desenvolver minhas teorias sobre referências a participantes na profecia de Isaías 66.18-21 num post futuro. Contudo, fica abaixo com vocês uma aplicação dessa teoria. O que segue é uma análise bem superficial de dois participantes em Juízes 19.1-4, apenas com fins didáticos, isso é, para demonstrar como uma atenção maior a participantes nos discursos hebraicos pode nos ajudar a ler e compreender o texto melhor.

Na tragédia de Juízes 19, vemos a introdução de um participante: “houve um homem levita, que, peregrinando nos longes da região montanhosa de Efraim, tomou para si uma concubina de Belém de Judá” (verso 1). Como o participante é ativado pela primeira vez (não o conhecíamos antes desse texto), vemos não apenas uma frase nominal (אִישׁ לֵוִי), mas também toda uma frase descritiva (‎גָּר בְּיַרְכְּתֵי הַר־אֶפְרַיִם) para ativá-lo.

O segundo verso do texto fala sobre sua concubina, e vemos referência ao levita de novo no começo de 19.3 como “seu marido” em português (ARA), mas em hebraico, essa referência ao participante é feita apenas pelo verbo Qal Imperfeito Consecutivo 3ms וַיָּקָם. Isso já demonstra que a referência a participantes é diferente nas duas línguas, já que em hebraico apenas uma forma verbal basta para reativar um participante que em português é reativado pela nominalização.

No mesmo versículo, para desambiguar o sentido (a tarefa semântica), vemos que o pai da menina é acionado como aquele que vê e se regozija ao ver o levita: ‎וַיִּרְאֵהוּ אֲבִי הַנַּעֲרָה וַיִּשְׂמַח לִקְרָאתוֹ. Já logo em seguida, no v. 4, duas frases substantivas são utilizadas para se referir ao sogro, e agora já parece que existe algo mais do que apenas uma tarefa de desambiguação: ‎וַיֶּחֱזַק־בּוֹ חֹתְנוֹ אֲבִי הַנַּעֲרָה. Assim, ao notar essa discrepância, podemos sugerir aqui uma tarefa discurso-pragmática, sinalizando a importância da ação do sogro (confira a importância do verbo חזק no texto no meu artigo na Fides Reformata sobre esse texto).

Espero que essa pequena análise demonstra a utilidade do estudo da referência a participantes no hebraico bíblico. Através do estudo da referência a participantes, podemos 1) notar mais nitidamente a descrição de certos personagens bíblicos, 2) distinguir conceitos da língua hebraica e da língua portuguesa, auxiliando portanto o trabalho de tradução e 3) explicar certas discrepâncias aparentes ou ênfases de participantes em função do discurso.

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