Como NÃO usar o hebraico no sermão, parte 2

Como seres humanos, conseguimos comunicar uns com os outros. Contudo, essa comunicação acontece por meio de uma linguagem que temos em comum. Muitas vezes, ao inserir uma palavra estranha numa frase, você torna o significado obscuro. Por exemplo, eu falo inglês e português, mas nem por isso vou inserir uma phrase in English no meio de uma frase em português, não é? Isso não faz sentido… Da mesma forma, muitas vezes percebemos inserções de grego e hebraico em sermões que são verdadeiros obstáculos à compreensão do mesmo.

Nesse post, continuamos a falar sobre usos do hebraico que devemos evitar nos nossos sermões (veja aqui o post anterior sobre o mesmo assunto). Afinal, não queremos repetir o erro de Calvin na tira abaixo!

CalvinHobbes

Como não usar o hebraico no sermão

4 – Não use o hebraico como ponto final do argumento

Exemplo. “O amor de Deus é incondicional. Sabe como sei disso, irmãos? Porque a Bíblia diz que o amor dele é חֶסֶד!”

Por que não? Acho que muitas vezes o que está por detrás do uso das linguagens bíblicas num sermão é um tipo de orgulho, um “querer aparecer”, uma insegurança que leva o pregador a tentar mostrar o conhecimento que tem para que os ouvintes creiam.

Qual o problema com isso? Existem vários problemas latentes com esse tipo de uso do hebraico:

  1. Você, como pregador, está tentando controlar sua audiência pelo uso retórico das linguagens bíblicas. Ao invés disso, deveríamos aprender com o apóstolo Paulo, que diz, “a minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder, para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria humana, e sim no poder de Deus”. (1 Coríntios 2.5)
  2. Semelhante ao último ponto, você deve demonstrar que sabe do que está falando não da linguagem bíblica, mas da própria palavra de Deus!
  3. Quem dos seus ouvintes realmente achará que você sabe do que está falando só porque você pronunciou uma palavrinha que eles não entendem? Eles podem achar que você é esperto, ou que você é um charlatão, mas seu argumento não é melhorado em nada pelo uso retórico das linguagens bíblicas.

Exceção. É possível que existam casos nos quais você precise se defender, como mensageiro do evangelho, para conseguir defender o evangelho corretamente. Em outras palavras, se for necessário mostrar que você conhece as linguagens bíblicas para fins apologéticos, é claro que você precisa ser fiel e mostrar que o evangelho não é sem base!

5 – Não use o hebraico como “sinônimo” ou “fortalecimento” de uma palavra em português

Exemplo. “O Espírito de Deus — o רוּחַ אֱלֹהִים — enche aquele ser de barro, e ele se torna um ser vivo!”

Por que não? Esse uso do hebraico é fútil e não realiza nada.

Qual o problema com isso?

  1. Assim como o #4 acima, esse uso é apenas retórico.
  2. Esse tipo de uso é bem parecido com o uso do hebraico como palavra de poder. Veja minha advertência contra isso na parte 1.
  3. Ao usar o hebraico de tal forma, você comunica que existe algum macete, algum poder ou significado especial que é destravado pelo uso do hebraico como sinônimo de uma palavra em português. Não faça isso!

Exceção. Não há. Não existe razão para usar o hebraico de tal forma no sermão.

6 – Não use o hebraico para apelar a um ponto linguístico do hebraico que não existe em português

Exemplo. “Como todos sabemos, a linguagem hebraica não possui uma noção de tempo verbal. Assim, o que temos aqui pode tanto ser uma profecia quanto um relato de algo que aconteceu no passado.”

Por que não? Esse é um erro cometido por aqueles que conhecem o hebraico muito bem (ou pelo menos, como eu, acham que conhecem) e na sua empolgação supoem que seus ouvintes também apreciem as nuances linguísticas do hebraico. Infelizmente, esse raramente é o caso!

Exceções. Acho que esse ponto precisa de mais nuance. Assim, começarei com duas exceções para depois explicar os problemas em maior detalhe.

  1. Existem casos nos quais a melhor das traduções não consegue transmitir o significado do original. Como exemplo disso, veja o que disse sobre Jeremias 1.11 aqui. Nesses casos, é necessário explicar certos pontos do hebraico para que a congregação entenda o texto.
  2. Existem casos nos quais um ponto sintático ou gramático é chave para a compreensão do texto. Nesses casos cabe a nós explicar, de maneira abreviada, como o texto sagrado faz sentido. O problema é que precisamos discernir se nosso texto realmente apresenta tal caso ou se apenas achamos que o texto é inteligível sem nossa intervenção!

Qual o problema com isso?

1. Ninguém – nem mesmo o pedreiro! – admira a fundação de um prédio mais do que o prédio em si. Veja só que coisa feia:

Fundação

O que quero dizer com isso? Deixe a exegese no gabinete e traga um sermão ao púlpito!

2. A menos que o ponto linguístico que você quer fazer seja imprescindível para a compreensão do texto, você apenas confundirá sua audiência. Já gastei vários sermões distraído, pensando sobre uma ilustração (inclusive linguística) que não estava diretamente ligada ao sermão. Você não quer que sua congregação passe todo o tempo do seu sermão pensando sobre como o povo hebraico se comunicava se não tinham uma noção do tempo!

Observação. Cabe aqui uma pequena observação pessoal: como nerd, é muito fácil me empolgar com coisas que outros ainda não notaram. Um verbo estranho aqui, um adjetivo de gênero inesperado ali… Muitas vezes essas observações me levam também a entender o texto de uma forma diferente. Contudo, só por que eu consegui escalar o desfiladeiro não significa que minha congregação precisa fazer o mesmo – posso jogar uma corda do outro lado. Uma das coisas mais difíceis para mim é pensar, orar, e buscar a sabedoria de Deus sobre como criar essa ponte na hora do sermão, mas acho indispensável fazê-lo. Como ministros do evangelho, devemos esclarecer e não ofuscar as glórias de Deus presentes na sua Palavra!

Mas se é assim, como uso o hebraico?

Voltarei a esse assunto num post futuro, mas como já sugeri, pense no uso do hebraico num sermão como a fundação de um prédio, a raíz de uma árvore, ou até mesmo como o sistema cardiovascular: todos são indispensáveis, mas invisíveis ao olho nu. Use o hebraico na preparação do teu sermão, não na execução do mesmo! Fique ligado também para ver os próximos posts, nos quais darei alguns exemplos de como se pode usar o hebraico no sermão em si e principalmente na exegese em preparação para o mesmo.


Esse post faz parte de uma série de posts sobre o uso do hebraico no sermão. Veja abaixo outros posts na série:

  1. Como NÃO usar o hebraico no sermão, parte 1
  2. Como NÃO usar o hebraico no sermão, parte 2
  3. Como usar o hebraico no sermão   (em breve!)
  4. Como usar o hebraico para preparar um sermão, parte 1   (em breve!)
  5. Como usar o hebraico para preparar um sermão, parte 2   (em breve!)

4 comentários sobre “Como NÃO usar o hebraico no sermão, parte 2

  1. Pingback: Como usar o hebraico no sermão – Isso é Hebraico!

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