Como usar o hebraico no sermão

O pregador piedoso sabe que é uma grande bênção poder pregar a Palavra do Senhor. Todavia, isso é ao mesmo tempo uma responsabilidade enorme. De fato, ao dizer “assim diz o Senhor”, transmitimos a vontade de Deus ao seu povo. E ai de nós se colocamos mentiras na boca do Deus verdadeiro! Afinal, “o profeta que presumir de falar alguma palavra em meu nome, que eu lhe não mandei falar, ou o que falar em nome de outros deuses, esse profeta será morto” (Deuteronômio 18.20).

Foi por meio de homens que tiveram esse cuidado com a Palavra de Deus que muitos de nós viemos a ouvir e a crer o evangelho. Logo, espero que você, pregador, almeje dar a mesma atenção à Palavra de Deus na sua pregação como outros gigantes do passado o fizeram!

PúlpitoGeneva
O púlpito de João Calvino

Nos últimos dois posts dessa série (Como não usar o hebraico no sermão 1 e 2), mostrei que existem poucos casos nos quais devemos pronunciar o hebraico do púlpito. Na verdade, gostaria de propor uma regra geral a todo pregador e, especialmente, aos seminaristas: nunca use o hebraico no sermão. Essa pode parecer uma regra rigorosa, mas prometo que se você restringir aquela impulso imediato de usar as línguas bíblicas no sermão, sua congregação te agradecerá.

Contudo, se você já assistiu minhas aulas de hebraico, saberá que toda regra tem suas exceções. Portanto, no post de hoje vou sugerir duas possíveis exceções à regra de nunca usar o hebraico no sermão, e uma terceira forma de usar o hebraico no sermão que não chega bem a ser uma exceção à regra acima…

Como usar o hebraico no sermão

1 – Use o hebraico no sermão para defender o evangelho

Como assim? Como eu disse antes, existem casos nos quais será necessário usar as línguas originais para defender o evangelho, ou para defender seu próprio conhecimento e qualificação pessoal em defesa do evangelho. Permita-me explicar melhor com dois casos fictícios.

Caso 1: Pastor André não é o melhor ou mais empolgante pregador, mas é fiel a Deus. Ele aprendeu as línguas originais no seminário e as usa semanalmente na sua preparação de sermões. Mesmo assim, ele tem a convicção que não deve confundir sua congregação com as minúcias do hebraico no sermão.

Certo dia, Pastor André notou que o seminarista Édson estava difundindo ideas estranhas entre alguns membros da congregação. Ideas sobre como realmente se deve traduzir certas palavras que o pastor nem mencionou no seu sermão, sobre o “verdadeiro” significado de “palavra” naquele sermão da semana passada em Deuteronômio 18…

Depois de dar um bom “catchau” teológico no Édson (que, graças a Deus, se arrependeu e aceitou a correção), pastor André notou que ainda haviam alguns membros da congregação com dúvidas quanto a certas traduções. Assim, ele tomou a decisão de, no próximo sermão, mostrar um pouco do que conhecia das línguas originais para aquietar os rumores.

Caso 2: Num filme recente e muito popular, várias alegações foram feitas contra o cristianismo. Uma delas foi que Isaías 7.14 não se refere a uma virgem, mas a uma moça jovem. Pastor Marcos, que trabalha com os jovens da igreja, soube que muitos deles assistiram esse filme. Assim, como se aproximava o Natal, o pastor decidiu pregar justamente em Isaías 7, e e decidiu apelar à palavra hebraica  e defender o nascimento virginal de Cristo.

Precauções. Tome cuidado para não pensar que cada probleminha que aparece na igreja é justificativa para trazer todo seu conhecimento das línguas originais à tona. Mesmo nos casos acima é possível que o uso do hebraico não tivesse completa justificativa. Por exemplo, se a congregação do pastor André nunca desse bola ao seminarista, ele nem precisaria se defender do púlpito, e se o pastor Marcos tivesse confiança na teologia dos seus jovens, talvez não tivesse que recorrer ao uso do hebraico.

2 – Use o hebraico para explicar um ponto essencial do texto

Como assim? Como nenhuma tradução é perfeita, haverão momentos nos quais o pregador notará que o texto não pode ser explicado sem apelar à língua original. É necessário ser fiel à Palavra de Deus! Veja um exemplo pessoal abaixo:

Exemplo: Há algum tempo, preguei Isaías 12. O texto na versão Almeida Revista e Atualizada é como segue:

1 Orarás naquele dia: Graças te dou, ó SENHOR, porque, ainda que te iraste contra mim, a tua ira se retirou, e tu me consolas. 2 Eis que Deus é a minha salvação; confiarei e não temerei, porque o SENHOR Deus é a minha força e o meu cântico; ele se tornou a minha salvação. 3 Vós, com alegria, tirareis água das fontes da salvação. 4 Direis naquele dia: Dai graças ao SENHOR, invocai o seu nome, tornai manifestos os seus feitos entre os povos, relembrai que é excelso o seu nome. 5 Cantai louvores ao SENHOR, porque fez coisas grandiosas; saiba-se isto em toda a terra. 6 Exulta e jubila, ó habitante de Sião, porque grande é o Santo de Israel no meio de ti.

Ao examinar o texto, notei que o o capítulo em três partes, baseado na audiência a quem o profeta se dirigia. Os v 1-2 (parte 1), dirigidos a uma pessoa singular (provavelmente a nação de Israel), v 3-5 (parte 2), dirigidos a um grupo de pessoas (provavelmente indivíduos salvos da nação de Israel), e v 6 (parte 3), dirigido a uma pessoa (“habitante de Sião”).

Contudo, ao ler o texto em hebraico, notei que o habitante de Sião era uma habitante de Sião. Isso me soou estranho, porque em hebraico, assim como em português, quando o gênero de alguma pessoa não é especificado, assumimos que é o gênero masculino, ou seja, o gênero comum. Contudoְ, a palavra hebraica em Isaías 12.6 é יוֹשֶׁבֶת, um particípio singular feminino, não masculino.

Ao continuar meus estudos, notei que a única figura feminina relacionada com “Sião” nos capítulos anteriores era a “filha de Sião”, sempre rebelde nos primeiros 11 capítulos do livro. Já no capítulo 11, vemos uma profecia de salvação completamente transformadora. O capítulo 12 mostra três respostas à salvação de Deus. Com base nisso, cheguei à conclusão de que Isaías fala sobre a salvação da filha rebelde de Deus, que aqui não é mais a “filha de Sião”, mas aquela que foi transformada de tal forma que agora habita na cidade escolhida de Deus – a “habitante de Sião”.

Toda essa argumentação acima vem do fato de que uma palavra é explicitamente feminina no texto hebraico, coisa que não se pode notar em português. Assim, ao pregar a mensagem, parei no v. 6 para explicar um pouco do hebraico para assim também fundamentar aquilo que diria sobre a habitante de Sião e seu relacionamento conosco – filhos e filhas rebeldes que recebem, em Cristo, moradia com Deus.

Precauções. A precaução aqui é a mesma da anterior – cuidado para não pensar que todo pontinho na exegese necessita sua perícia poliglota!

3 – Use o hebraico como o “ninja” do sermão – invisível, mas mortal!

Como assim? A melhor forma de usar o hebraico não é no sermão em si, mas como aquela influência forte, embora invisível. Na leitura do texto antes do sermão, coloque ênfases vocais nas partes do texto hebraico que diferem da norma sintática. Ao notar aliterações ou repetições fonéticas num salmo, não é necessário explicar o que essas coisas são – apenas dê o valor devido às traduções dessas palavras no seu sermão.

Precauções. Creio ser essa a melhor forma de usar o hebraico; isso é, na preparação do sermão. Apenas lembre-se que a Palavra de Deus é a mensagem transmitida na língua hebraica (e sua tradução também!), e não a língua em si!


Esse post faz parte de uma série de posts sobre o uso do hebraico no sermão. Veja abaixo outros posts na série:

  1. Como NÃO usar o hebraico no sermão, parte 1
  2. Como NÃO usar o hebraico no sermão, parte 2
  3. Como usar o hebraico no sermão
  4. Como usar o hebraico para preparar um sermão, parte 1   (em breve!)
  5. Como usar o hebraico para preparar um sermão, parte 2   (em breve!)

2 comentários sobre “Como usar o hebraico no sermão

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