Ensina a criança…

Caminho

Dou graças a Deus por me ter dado pais crentes. Frequentemente digo que o maior exemplo de uma vida de compromisso com o evangelho na minha vida é o exemplo do meu pai e da minha mãe. Quando eu era criança, ambos gastaram bastante tempo me ensinando a mensagem da Bíblia, usando todos os recursos possíveis: me ensinaram a ler, recitavam versículos bíblicos, me ensinaram músicas para memorizar trechos da Bíblia, etc. Lembro-me do Salmo 37.4, um versículo que minha mãe colocou na porta do meu banheiro: “Agrada-te do Senhor, e ele satisfará os desejos do teu coração.” Como eu tinha vários desejos no meu coração (revistas de quadrinho do homem-aranha, Legos, o novo jogo do Age of Empires, etc.), aquele versículo me chamou a atenção. Mas aí comecei a parar e pensar na primeira parte do versículo: “Agrada-te do Senhor”, e começei a pensar: peraí… se meu agrado for Deus… então o desejo do meu coração será Deus… então… se eu me agradar de Deus ele me dará mais de Si? Mas… cadê o Lego!? O choque de perceber que a Bíblia gira em torno de reorientar meus desejos a Deus foi tamanho, e ficou comigo até hoje.

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Como o hebraico me ajuda na pregação?

Este post é direcionado, principalmente, a seminaristas e pastores. Isto é, aqueles que atualmente manejam, ou almejam manejar, a palavra de Deus no contexto da pregação. Todavia, espero que outros também possam ser beneficiados!

Neh8.7-8
Neemias 8.7-8 “… e os levitas ensinavam o povo na Lei; e o povo estava no seu lugar. Leram do livro, da lei de Deus, interpretando, e deram explicações de maneira que entendessem o que se lia.” (minha tradução)

Certamente, o pastor, seminarista, missionário, ou até mesmo um transeunte que alguma vez passou perto de algum seminário com ouvidos abertos, já ouviu esta conversa:
–Cara, tô muito cansado de estudar tudo isso!
–Nem sei por que estudamos o hebraico hoje em dia! Meu pastor só prega usando a Bíblia em português.
–Pois é! Além do mais, João do último ano disse que fez a aula de pregação e passou sem nem olhar para o hebraico!
–É muito trabalho pra pouca coisa… fala sério!

Se é assim, vamos então “falar sério”. Sabe uma coisa que é séria? O ministério pastoral. Observamos, em Ezequiel 34.11-31, que Deus é o Pastor das ovelhas, e que Ele estabelece seu Messias como Pastor sobre seu povo. Logo, qualquer pastoreio nosso é subordinado ao pastoreio de Cristo (Hebreus 13.20). Se essa responsabilidade já não bastasse, Tiago faz ainda uma forte advertência: “Meus irmãos, não sejais muitos de vós mestres, sabendo que receberemos um juízo mais severo” (Tiago 3.1).

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Logos em português!

Foi lançado ontem a versão português de Logos, um software de estudo bíblico. Na minha opinião, Logos é realmente o melhor software para recursos de estudo bíblico, mas BibleWorks e Accordance ainda o superam no estudo do texto bíblico em si. Isto é, o Logos é uma ótima biblioteca virtual para estudos bíblicos, coisa que não é possível com o BibleWorks, e é mais difícil para o Accordance, mas ainda faltam várias ferramentas de exegese para o Logos.

Aliás, quando digo que o Logos foi lançado em português, quero dizer que sua interface de usuário foi traduzida. É claro que programas como o Logos e o BibleWorks sempre foram acessíveis a brasileiros (e outros falantes de português!), mas somente em inglês. Assim, o Logos é o primeiro software bíblico a ter uma interface de usuário em português! Parabéns, Logos!

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Outra coisa: existem excelentes recursos em português no blog oficial do Logos em portugês, inclusive vários vídeos tutoriais.

Análise do Discurso: O que é?

O título é um pouco enganador. Não vou falar sobre a área de análise de discurso como é conhecida nos ramos acadêmicos brasileiros. No nosso país, adotamos um sistema de análise francês direcionado, em grande medida, a estudos relacionados à mídia e suas ideologias (sócio-políticas, religiosas, filosóficas, científicas, etc.). Já no mundo dos estudos bíblicos, a análise do discurso está voltada, é claro, para o texto da Bíblia. Assim, a análise do discurso que nos interessa é mais informada pela linguística e hermenêutica do que pela filosofia.

Poderíamos falar de vários linguistas bíblicos antes de 1916 (os mais importantes ou mais influentes linguistas do hebraico antes da fase moderna incluem os Massoretas, Orígenes, e Jerônimo), mas a cena linguística mudou completamente com Ferdinand de Saussure e seu Curso de Linguística Geral. Saussure, na verdade, morreu em 1913, mas o curso que ensinou (apenas 3 vezes!) na Universidade de Genebra foi publicado através de uma restauração e compilação das notas de seus alunos em 1916.

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Ferdinand de Saussure

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Há algo de errado com as traduções que temos?

Ok. Acho bom já de início desmistificar a importância das linguagens bíblicas. O hebraico não é, contrário a rabinos judaicos medievais (Gênesis Rabá 38.4), a língua de Adão ou língua de Deus, utilizada para criar o mundo. Não existe uma sacrosanticidade nem do hebraico nem do grego. Deus poderia ter utilizado swahili, mandarim ou tupi-guarani tão bem quanto utilizou hebraico e grego.

Não obstante, Deus escolheu utilizar o hebraico porque essa era a língua dos judeus. Ele utilizou o grego porque essa era a língua franca nos tempos de Cristo. As línguas originais da Bíblia são escolhas de Deus ao intervir no tempo e no espaço da humanidade. Isto é: a Bíblia foi escrita em hebraico e grego (ah! e, é claro, aramaico!) porque Deus se acomodou, se adaptou, ao modo de falar da sua audiência em um tempo e geografia específicos.

Ótimo, legal, beleza, mas… se a Palavra de Deus foi escrita em linguagens contemporâneas, que hoje não utilizamos, qual é o problema com as traduções?

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Não é muito difícil aprender hebraico?

Já me acostumei àquele olhar meio-estupefato, meio-assombrado que recebo quando digo que conheço 7 línguas (3 vivas, 4 mortas – e as mortas nem valem tanto assim!). “O quêêê?? Você deve ser um gênio!” E aí acaba toda a discussão. Não vale dizer que não é tão difícil assim – “Ahn, mas é claro, pra você, inteligente assim, nada é difícil!” – ou que é apenas necessário estar disposto a ser diligente e trabalhar duro – “Aposto que gastaria o dobro – não, o triplo! – de tempo para aprender o mesmo que você!” – ou até mesmo admitir que já esqueci mais do que aprendi – [insira comentário estupefato/assombrado aqui]…

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Gustave Doré La Confusion de Langues (1865)

Mas quer saber o que realmente acontece? Acontece que somos preguiçosos. É mais fácil acreditar que existe um suposto “dom de línguas” (não digo no sentido teológico), uma receita molecular no DNA de todos-a-não-ser-eu – seres humanos superiores a mim – que conseguem aprender as linguagens bíblicas, do que acreditar que, se eu tivesse o interesse ou a necessidade de aprender outra língua, poderia fazê-lo facilmente. Veja, por exemplo, o que diz o poliglota irlandês, no mundo secular, que agora vende seu método de aprendizado pela internet.

Minha esposa nasceu e cresceu na Índia, em Pune, Maharashtra. Ela fala inglês (a língua utilizada em casa e na igreja), marathi (a língua utilizada no dia-a-dia no seu estado), hindi (a língua necessária para ver filmes do Bollywood), e consegue se comunicar em outras duas. E veja só que isso não é fora do comum no seu estado. De fato, em vários lugares na Ásia e África, é infreqüente o cidadão monolinguístico. Além disso, depois de se casar comigo, ela aprendeu o hebraico bíblico (não foi imposição minha! prometo!) e está aprendendo o português – as duas línguas porque ela quis, isto é, teve o interesse de aprender.

Contudo, quando digo que o hebraico não é difícil demais de se aprender, isso não quer dizer que é tudo um mar de rosas e que há um método perfeito para se aprender a língua toda em um mês. O aprendizado de qualquer língua requer imersão e contato constante. Assim, a língua hebraica acaba sendo uma amante ciumenta: ela rejeitará qualquer pessoa que não dedicar o tempo necessário para conhecer seu modo de se expressar (pronúncia e escrita), seus jeitinhos e neuras (gramática), ou que nunca parar para admirá-la como um todo (ex: a tradução de um texto bíblico completo). Então, a língua hebraica é difícil? Sim, mas não tanto quanto pensamos e vale à pena!