Ensina a criança…

Caminho

Dou graças a Deus por me ter dado pais crentes. Frequentemente digo que o maior exemplo de uma vida de compromisso com o evangelho na minha vida é o exemplo do meu pai e da minha mãe. Quando eu era criança, ambos gastaram bastante tempo me ensinando a mensagem da Bíblia, usando todos os recursos possíveis: me ensinaram a ler, recitavam versículos bíblicos, me ensinaram músicas para memorizar trechos da Bíblia, etc. Lembro-me do Salmo 37.4, um versículo que minha mãe colocou na porta do meu banheiro: “Agrada-te do Senhor, e ele satisfará os desejos do teu coração.” Como eu tinha vários desejos no meu coração (revistas de quadrinho do homem-aranha, Legos, o novo jogo do Age of Empires, etc.), aquele versículo me chamou a atenção. Mas aí comecei a parar e pensar na primeira parte do versículo: “Agrada-te do Senhor”, e começei a pensar: peraí… se meu agrado for Deus… então o desejo do meu coração será Deus… então… se eu me agradar de Deus ele me dará mais de Si? Mas… cadê o Lego!? O choque de perceber que a Bíblia gira em torno de reorientar meus desejos a Deus foi tamanho, e ficou comigo até hoje.

Mas não foi somente aquele versículo que ficou comigo. Dentre vários outros, um dos que me lembro é Provérbios 22.6:

Ensina a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará dele.

Prov22.6Sei que não foram somente meus pais que usaram esse versículo na criação dos filhos, e com razão! Porém, acho que um estudo mais aprofundado no versículo pode fornecer uma perspectiva mais exata do que se trata. Pela tradução acima (Almeida Revista e Atualizada – ARA), o provérbio parece simples, mas quando olhamos para o hebraico, as coisas começam a ficar complicadas. Aqui estão alguns problemas:

  1. A primeira palavra, “ensina”, aparece apenas aqui com o sentido de “ensinar”, usado no resto da Bíblia com o sentido de “dedicar”.
  2. O provérbio não diz, estritamente, “ensina a criança no caminho…”, mas, literalmente, “… de acordo com a boca do caminho…”.
  3. A expressão “em que deve andar” simplesmente não aparece no hebraico. דַּרְכּוֹ significa “seu caminho”. É claro que é possível entender “seu caminho” como “o caminho correto” ou “o caminho em que deve andar” ou algo do tipo, mas é importante notar que todas essas palavras elaboram o que no hebraico é apenas uma letra: o sufixo pronominal 3ms וֹ (“seu”).

Porém, mesmo com todos esses problemas, quero deixar claro que não acho que a ARA é uma tradução inadequada ou deficiente. O livro de Provérbios é notoriamente difícil de se traduzir, já que consiste de frases poéticas com várias ambiguidades e ensinamentos implícitos, e existem também diferentes teorias de tradução (se devemos ser mais propensos à língua fonte ou à língua alvo, etc). Embora eu discorde da tradução da ARA, ela continua sendo uma tradução possível. Apenas creio que existe uma tradução mais provável. Porém, mais do que debater a tradução, o que quero mostrar neste post é como o hebraico enriquece nossa leitura da Palavra de Deus. Vou explicar as implicações de cada um dos pontos acima.

1) A raíz חנך é utilizada apenas 5 vezes em toda a Bíblia. As outras quatro vezes que ela aparece na Bíblia hebraica, significa “dedicar” (cf. Dt 20.5[2x], 1Rs 8.63, 2Cr 7.5). Note que os demais textos onde o verbo aparece podem ser resumidos em duas ocasiões: a) a dedicação inaugural de uma casa (Dt 20.5: “Qual o homem que edificou casa nova e ainda não a consagrou? Vá, torne-se para casa, para que não morra na peleja, e outram a consagre“) ou b) a dedicação inaugural do templo de Salomão (1Rs 8.63 // 2Cr 7.5: “Assim o rei e todos os filhos de Israel consagraram a casa do Senhor”). Em cada uma dessas ocasiões, a Septuaginta (tradução do AT para o Grego feita por judeus antes de Cristo) traduz o termo pelo verbo grego ἐγκαινίζω, que significa, simplesmente, “inaugurar”. Esse sentido parece estar mais perto do original do que “consagrar”. Em 1 Reis 8.64, por exemplo, logo depois de falar do חנך do templo de Salomão, o texto usa a raíz קדשׁ para falar de uma consagração do átrio do mesmo. Uma raíz diferente é utilizada porque um sentido diferente é necessário. Será, então, que a raíz aqui em Provérbios 22.6 mantém conformidade com os demais usos da mesma no resto do AT? Assim, em vez de “Ensina”, a primeira palavra, mesmo que retenha certo sentido de ensino, penderia mais para o lado de “Inicia” ou “Começa”. Mesmo se quisermos manter a tradução “ensina”, que realmente faz mais sentido no português, a raíz חנך nos ajuda a reconhecer um sentido incipiente no ensino.

2) A expressão עַל־פִּי é um idioma do hebraico (e.g. Lv 27.8, 18, Ex 17.1) que significa, mais ou menos, “de acordo com” ou “proporcional a”. Ela é rara no AT, mas aparece suficientemente para mostrar que expressa um padrão ou uma maneira do objeto ao qual se refere. Como assim? Em Gênesis 43.7, os irmãos de José explicam ao pai a grande pressão que enfrentaram diante do homem misterioso no Egito: “Vive ainda vosso pai? Tendes outro irmão?” Assim, ‎ וַנַגֶּד־לוֹ עַל־פִּי הַדְּבָרִים הָאֵלֶּה, isto é, “Respondemos-lhe de acordo com essas palavras”. Os irmãos seguem uma maneira específica de responder ao homem (José, é claro). Da mesma forma (e isso é uma discordância pequena, mas significante, com a ARA), uma tradução mais adequada em Pr 22.6 seria “de acordo com seu caminho” ou “segundo seu caminho”, mostrando, assim, um padrão já estabelecido, e não um caminho hipotético “em que se deve andar”.

3) É hipoteticamente plausível que דָּרְכוֹ signifique “o caminho que deve andar” mas, ao mesmo tempo, incrivelmente improvável. O pequeno וֹ no final da palavra é o que chamamos um sufixo pronominal. No hebraico, o pronome pessoal pode aparecer de duas formas: 1) como um pronome independente e 2) como um sufixo pronominal. No primeiro caso, quando pronome pessoal aparece de forma independente, sua função é bem similar ao que chamamos de um pronome reto em português (eu, tu, ele, etc.). O pronome reto em português e o pronome pessoal independente no hebraico normalmente funcionam como substantivos na frase. Já o sufixo pronominal, quando é sufixado a um substantivo, funciona quase sempre como o pronome possessivo no português (meu, teu, seu, etc.). O pronome pessoal no português e o sufixo pronominal ligado a um substantivo no hebraico fazem o seguinte: se referem a uma das pessoas do discurso e simultaneamente dão uma idéia de posse a outro substantivo. Assim, em português, a frase “Eu não gostei da minha comida”, o pronome possessivo “minha” refere-se, simultaneamente, a “Eu” e “comida”, sendo a comida o substantivo que pertence à 1a pessoa (Eu). Assim, também, “seu caminho” refere-se ao caminho que pertence ao menino. É possível que “seu caminho” signifique “o caminho que deve andar”? … sim? Mais ou menos? Digamos que é tão provável que דָּרְכוֹ signifique “o caminho que deve andar” quanto é provável que “seu caminho” signifique “o caminho que deve andar” em português.

Mas afinal, qual seria uma tradução mais adequada? Eu acho que o provérbio deve ser lido ironicamente: “Começa a criança segundo seu (próprio) caminho e, mesmo quando for velho, não se apartará dele!” Assim, se você deixar o Juniorzinho jogar videogames o tempo todo, não se espante quando, trinta anos depois, você ver um marmanjão desempregado deitado no sofá da sua casa jogando Xbox!

* Mais uma vez, quero deixar claro que meu propósito não é invalidar a tradução que temos, mas apenas sugerir uma tradução que creio ser mais adequada. Mesmo seguindo a tradução que ofereço, o princípio é o mesmo: o ensino de um jovem é formativo para o que ele será no futuro.

7 comentários sobre “Ensina a criança…

  1. Thiago Moura

    Prof Danilo, estou com uma dúvida a respeito de Gn 6.18.
    “Contigo, porém, estabelecerei a minha aliança; entrarás na arca, tu e teus filhos, e tua mulher, e as mulheres de teus filhos.” (Gen. 6:18 ARA)

    No livro Criação e consumação Vol I, do G.Van Groningen, ele explica que o termo “‎ וַהֲקִמֹתִ֥י, (que a ARA traduz para “estabelecerei”), no hiphil, frequentemente significa “continuar a ser estabelecido”. Nas notas de rodapé, ele diz: “ver a discussão de Drumbell a este respeito -covenant and creation, 25-26 (livro este que não tenho acesso).
    Pois bem, trata-se de um verbo perfeito com wav consecutivo, o que até poderia dar um sentido de ação costumeira ou repetida, mas creio que com maior frequência, ela é traduzida no futuro.

    Além disso, não encontrei nenhuma gramática que coloque o sentido de continuidade no verbo hiphil, pois esta não seria atribuição dos troncos verbais, não é mesmo ?

    Para mim, a tradução para o termo seria algo como “eu causarei/farei com que seja estabelecido” ou até mesmo “efetuarei/realizarei”, como indica o léxico do Holladay.

    Esta passagem é maravilhosa quando entendemos a aliança como sendo reestabelecida com Noé, ao invés de o Senhor estar estabelecendo uma aliança nova. Entretanto, deixando nosso pressuposto aliancista de lado, este verbo no hiphil perfeito com wav consecutivo é, com maior naturalidade, melhor traduzido com o sentido de continuidade? Se sim, o que tem a ver com o fato de estar no hiphil?
    Alguma luz para o assunto ?

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      1. Tudo bem! Vou responder aqui mesmo.

        Não acho que é possível fazer um argumento de continuidade a partir do tronco, porque, como você mesmo disse, o tronco não é responsável por esse tipo de significado. Acho que van Gronigen (ou a pessoa que o traduziu ao português) não está correto nesse ponto. Mas dei uma olhada no argumento de Dumbrell (encontrei – em inglês – no google books), e o seu argumento é um pouco diferente. Ele não atribui continuidade ao tronco, mas diz que existe uma diferença semântica com קוּם no Hiphil. Isso é natural. Vimos (não me lembro quando durante o curso) que algumas raízes não terão um sentido causativo, mas uma tradução ativa que às vezes difere da tradução do mesmo verbo no Qal.
        Voltando a Dumbrell – ele diz que o verbo קוּם, no Hiphil e com o objeto בְּרִית, em todo lugar a não ser Gen 6.18, necessariamente se refere à confirmação, em vez do estabelecimento, de uma aliança. Assim, ele argumenta que o mesmo sentido está presente em Gen 6.18, e que o versículo está falando da “manutenção” de uma aliança que já existe.
        Se você tem o BibleWorks, é possível fazer uma busca por todas essas ocorrências e verificar por si mesmo: 1) selecione o texto WTM e 2) busque “.קום@vh* ברית”

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  2. Thiago Moura

    Sim, esse argumento de Dumbrel fez toda a diferença. Realmente eles tem o significado de continuidade. Não por causa do tronco, mas pelo sentido semântico do verbo. Realmente não lembrava, mas aprendemos essa tradução ativa do hiphil sim.
    Obrigado, professor!

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