Qual é o nome de Deus? (Parte 2b)

Você já imaginou como seria falar com Deus face a face? Creio que todos já pensamos nisso ao menos uma vez na vida, não? Quando leio textos como Êxodo 3, tento me colocar no lugar de Moisés, ali, diante de Deus, ouvindo sua voz, sentindo fisicamente sua santidade e, pela primeira vez na história da humanidade, ouvindo o nome de Deus!

Grande parte dos meus esforços exegéticos são para me aproximar mais a Deus através de sua palavra, a chegar o mais próximo o possível de conhecê-lo. Espero que o post de hoje possa te ajudar a fazer o mesmo!

Monte Sinai.png
Foto do Monte Sinai

No último post sobre o nome de Deus, mostrei como a exegese pode nos ajudar a decifrar o nome de Deus em Êxodo 3.14. Neste post, quero tornar nossas atenções a um outro tipo de estudo exegético: a análise sintática. Como mostrei num post passado a importância da sintaxe, hoje quero mostrar outro exemplo de diagramação, mas ao mesmo tempo explicar mais aprofundadamente como podemos aprender com esse tipo de análise.

Observações Sintáticas

Começarei com uma diagramação sintática. Note bem algumas coisas:

  • O texto abaixo é o texto de Êxodo 3.14-15. Não deixe os números em vermelho te confundirem; coloquei-os ali somente para servir de referência na nossa discussão.
  • Uma linha com uma seta representa a subordinação de uma oração (ou frase) a outra.
  • Uma linha dupla sem seta representa elementos que são sintaticamente paralelos, isto é, que estão no mesmo nível sintático.
  • A tradução em amarelo é minha.

 

Ao dividir o texto de tal forma, certos aspectos do texto se destacam. Em primeiro lugar, vemos que o texto todo é dividido em “níveis” de subordinação sintática. Por que isso é importante? Porque todas as linguagens do mundo fazem algum tipo de subordinação, algum tipo de ordem ou sequência que demonstra como a informação contida nas declarações verbais deve ser empacotada, armazenada, e distribuída. O que nós fazemos ao mostrar essa ordem num diagrama é como um “unboxing”, uma maneira de visualizar mais claramente o que está contido no texto. Assim, podemos observar as seguintes coisas:

  • O nível sintático mais básico é o que vemos nas orações paralelas 1, 3 e 6. Note que cada uma delas começa com o verbo וַיֹּאמֶר. No caso dessas orações, o que temos é o desdobramento da narrativa: (1) Deus disse, (3) e disse, (6) e disse ainda mais. Existe uma sequência temporal e narrativa, é claro, mas sintaticamente, essas frases tem o mesmo valor. Isso é, podemos dizer que essas três orações são os três “cabeçalhos” desses dois versículos (ou se você quiser pensar homileticamente, os três pontos do sermão).
    • A linha de número 2 é obviamente subordinada à linha número 1, já que é o conteúdo da fala de Deus. Podemos assim chamar a unidade 1-2 a auto-revelação de Deus.
    • O autor de Êxodo quebra a fala de Deus com sua interrupção na linha 3. Assim, podemos dizer que linhas 3-5 são a resposta de Deus à pergunta de Moisés em 3.13.
    • O que temos na linha 6 é basicamente uma repetição da linha 1, palavra por palavra, porém com uma palavra a mais: עוֹד. Assim, podemos chamar a unidade das linhas de 6-14 a elaboração de Deus acerca de seu nome.
  • Versículo 14 (linhas 1-5) é bem simples e direto, sintaticamente falando. Temos aqui uma fala de Deus, quebrada no meio pelo narrador para demonstrar duas coisas: 1) Deus se revela como EU SOU, um mistério ao mesmo tempo que uma revelação, e 2) Deus comanda que Moisés revele esse mistério revelatório ao povo de Israel.
  • Considerando assim o v. 14, não é necessário termos v. 15. Contudo, aí está. Note algumas coisas nesse versículo:
    • A linha 7 repete exatamente a linha 4, do v. 14.
    • A linha 12 repete o final da linha 5, do v. 14.
      • Considerando essas duas repetições, vemos que linhas 7 a 12 são uma expansão (ou como disse acima, uma elaboração) das linhas 3 a 5. Você já deve saber que o hebraico bíblico é uma língua que faz grande uso do paralelismo, isso é, da repetição de frases e ideias como um recurso de ênfase, desenvolvimento, e até mesmo como uma mnêmonica para os ouvintes originais.
    • As linhas paralelas 8-11 não representam orações diferentes (já que não há verbo), mas demonstram um relacionamento de aposição. Aposição é aquele recurso linguístico que utilizamos quando digo, por exemplo, “O Dr. Michael Horton, palestrante de hoje à noite, falará sobre os quinhentos anos da reforma”. Nesse exemplo, “palestrante de hoje à noite” faz aposição a “Dr. Michael Horton”, mostrando outro aspecto de quem é esse homem. Da mesma forma, linhas 9-11 fazem aposição à linha 8. É importante ver que Deus se revela como o Deus de Abraão, Isaque e Jacó porque mais tarde, na linha 14, ele diz ter esse nome “de geração em geração”.
    • As últimas duas linhas (13-14) podem ser subordinadas à linha 6 ou às linhas 1, 3 e 6 todas juntas. Creio que o segundo é mais provável.

Espero que essas notas lhe foram úteis! Contudo, depois de tantas observações, qual deve ser nossa conclusão a respeito do nome de Deus em Êxodo 3.14-15?

Qual é a Conexão entre o Tetragrama e o “Eu Sou”?

Como vimos no último post, “EU SOU” é um nome que revela Deus de duas formas: transcendente e imanente. Mas afinal das contas, qual é a conexão entre יהוה e אֶהְיֶה? Muitos dizem que aqui a conexão está na raíz do nome, que היה é a raíz de ambos os nomes. Assim, Deus diz, “Eu sou”, mas comanda que seu povo o chame de “Ele causa a ser”. É bem possível que isso seja verdade, mas como disse no nosso primeiro post sobre o nome de Deus, ninguém sabe se יהוה realmente vem da raíz הוה, uma antiga variação da raíz היה. Assim, considerando o que sabemos ao certo, isso é, considerando o que o texto acima diz, permita-me dar uma explicação sobre essa conexão.

Como vimos acima, versículo 15 é claramente uma elaboração daquilo que vimos no versículo 14. O mistério do nome EU SOU, que pergunta, “quem é você para perguntar meu nome? EU SOU!” é imediatamente suavizado com um nome mais próximo ao povo, um nome que diz, “sou o Deus de teus pais, um Deus cujo nome você pode pronunciar” e, de acordo com linhas 13 e 14, “um Deus cujo nome persistirá convosco de geração em geração”.

No mundo antigo, o nome de uma pessoa ou o nome de um deus ou espírito era considerado algo com poder. Vemos que vários nomes bíblicos são proféticos, ou ao menos explicam uma parte muito importante do caráter daquela pessoa. Conhecer o nome de um deus era ter poder sobre aquele Deus. Assim, parece-me que Deus inicialmente diz no v. 14, “meu nome não explica minha essência, mas explica a essência em si”, isso é, não há como controlar Aquele de quem toda coisa existente provém. Ao mesmo tempo, no v. 15, Deus mostra a Moisés e ao povo de Israel que ele é um Deus que está perto de seu povo, um Deus que busca comunhão, não somente com uma família, mas com gerações presentes e vindouras, um Deus que continua com seu povo por todo sempre. Não é de se espantar que esse versículo se torna o refrão do Salmo 135:

‎ יְהוָה שִׁמְךָ לְעוֹלָם יְהוָה זִכְרְךָ לְדֹר־וָדֹר׃

O teu nome, Senhor, subsiste para sempre; a tua memória, Senhor, passará de geração em geração.


Este post é o terceiro de uma série sobre o nome de Deus. Clique abaixo para ver os demais na mesma série:

  • Qual é o Nome de Deus? (parte 1) – nesse post tento explicar o que é e o que significa o Tetragrama.
  • Qual é o Nome de Deus? (parte 2a) – nesse post falo sobre como entender e traduzir a expressão “Eu Sou Quem Eu Sou” em Êxodo 3.14.
  • [em breve!] Qual é o Nome de Deus? (parte 3) – nesse post damos uma olhada na auto-proclamação do nome de Deus a Moisés em Êxodo 34.6-7.

2 comentários sobre “Qual é o nome de Deus? (Parte 2b)

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