A História do Hebraico Bíblico: podemos confiar na cronologia bíblica?

Existem certas expressões em português que simplesmente não ouvimos mais. Talvez você conheça ou até já usou as seguintes frases, mas sabe que não fazem parte do nosso vocabulário:

  • Aquele homem é um pão!
  • Xispa, fora!
  • Só agora que a ficha caiu!

A experiência de uma ficha não entrar no telefone público é algo que simplesmente não existe mais, e a expressão que depende desse evento também caiu em desuso. Mas não são apenas avanços tecnológicos que mudam nossas expressões. Linguagens são fluidas, sempre mudando a cada geração, de tal maneira que, se conseguíssemos entrar numa máquina do tempo, seria difícil nos acostumarmos ao português quando se usava “Vossa Mercê” em vez de “você”! Linguagens mudam rapidamente.

FichaIsraelita.jpg
Uma ficha de telefone do Estado de Israel no ano 1966. Você consegue decifrar a palavra na frente da ficha (טלפון)? Escreva abaixo nos comentários se você descobriu!

A Questão (Linguística) da Confiabilidade nas Escrituras

Nos últimos anos, alguns estudiosos começaram a dizer que, se linguagens mudam rapidamente, existe um problema para crentes conservadores que creem que a Bíblia foi escrita ao longo de vários séculos. A pergunta que fica é: como o texto bíblico do Antigo Testamento conseguiu resistir às mudanças do tempo e continuar sendo utilizado durante os longos séculos da sua escrita? Ou seja, como poderia um judeu que lesse Levítico durante o tempo do profeta Ezequiel, conseguir entender (num nível linguístico) um texto escrito vários anos antes de seu tempo? Afinal, quem de nós entende Camões? Em sua essência, essa pergunta diz respeito à confiabilidade da Palavra de Deus.

Devido à tese apresentada acima, esse grupo de historiadores e linguistas bíblicos defende que a Bíblia não foi escrita ao longo de séculos, mas foi inteiramente composta durante o exílio babilônico, provavelmente durante o período persa. As diferenças linguísticas que existem na Bíblia, de acordo com eles, não são diferenças diacrônicas[1], mas geográficas (basicamente sotaques diferentes), de tal maneira que toda a Bíblia foi composta por diferentes grupos de judeus em diferentes lugares, porém, toda a Escritura foi escrita em mais ou menos um ou dois séculos. Em outras palavras, é como dizer que o Pentateuco foi escrito por um grupo baiano, enquanto que Jó foi escrito por mineiros, e 1 e 2 Crônicas foi escrito por cariocas, e tudo ao mesmo tempo. Eles rejeitam que cada coleção de livros foi escrito em épocas sucessivas da história hebraica.

Não podemos responder detalhadamente aqui a essas questões do ponto de vista linguístico, mas acho bom e necessário sabermos um pouco mais da história da língua hebraica para conseguir contestar esse tipo de argumento que procura minar a confiança na veracidade das Escrituras. Afinal, precisamos estar cientes das diferenças diacrônicas no desenvolvimento da língua hebraica antes de poder responder uma questão como essa, não? [2]

Resposta histórica: o grau de alfabetização de Israel na antiguidade

É necessário estipular que temos apenas alguns resquícios do uso da escrita paleo-hebraica (veja o último post sobre a história da linguagem hebraica para ver como era essa escrita). Temos certeza, porém, que essa escrita foi utilizada no tempo das monarquias de Israel, uma vez que temos provas arqueológicas como a inscrição de Siloé, feita no tempo de Ezequias (abaixo).

InscriçãodeSiloé.jpg

Com o passar dos anos Israel e Judá se tornaram mais e mais influenciados e sujeitos às grandes superpotências do mundo antigo: a Mesopotâmia e o Egito. Essa influência afetou também a língue hebraica. Semelhantemente, nós mesmos importamos vários termos e palavras de superpotência ao português, como abajour, garçom, garagem etc. do francês ou futebol, bife, internet etc. do inglês. Da mesma forma, naqueles tempos, Israel e Judá importaram palavras, estilos literários e até o alfabeto quadrático babilônico. Temos várias evidências da escrita quadrática, popularizada entre séculos 3 e 4 a.C. na terra da Palestina, depois do qual o hebraico gradualmente cedeu seu lugar como língua cotidiana do israelita ao aramaico, processo que terminou entre os séculos 2 e 4 d.C. Como o hebraico já não era usado no dia-a-dia do judeu comum, a língua basicamente cessou sua evolução como língua falada de tal forma que foi utilizada e preservada como língua religiosa (escrita) por vários escribas, fariseus, e mais tarde os massoretas. Na verdade, a língua hebraica somente passou a ser falada de novo um pouco antes da criação do estado de Israel (nos fins do século 19).

Ok… essa é uma brevíssima história da língua hebraica. Mas como isso nos ajuda a provar que a Bíblia foi escrita antes do exílio babilônico? Afinal, como acabei de dizer, apenas temos resquícios arqueológicos do tempo da monarquia de Israel. De fato, os textos mais antigos do Antigo Testamento vêm do deserto da Judéia, mais de 200 anos depois do exílio!

Bom… vamos à resposta: em primeiro lugar, precisamos entender que, sem evidências antes de 200 a.C., tanto a possibilidade de uma escrita sincrônica quanto uma escrita diacrônica são reais. Nosso argumento se baseará mais em probabilidades e, em última instância, na coerência daquilo que acreditamos antes que interpretações arqueológicas.

Aaron Demsky, num texto antigo, mas não obsoleto [3], diz o seguinte:
Nos séculos do segundo e primeiro milênios a.C. (ca. 1700-330 a.C.) que formam a estrutura cronológica da narrativa bíblica durante a qual quase toda a literatura do Antigo Testamento foi composta, dois padrões básicos de alfabetização existiam no Oriente Médio antigo. A forma predominante era a alfabetização limitada dos escribas profissionais (extremamente bem-treinados) nos principais centros culturais da Mesopotâmia e Egito […]. A segunda forma existia nas sociedades que iniciavam seu processo de alfabetização, nas quais habilidades de escrita se econtravam a vários níveis da sociedade.

A antiga sociedade israelita fazia parte da segunda forma de sociedade – uma sociedade que exibia sinais de usos da escrita a vários níveis da sociedade. Existem certos artefatos arqueológicos que mostram essa difusão da leitura e escrita em vários níveis sociais israelitas, como o calendário Gezer (10 a.C. – demonstra escrita para fins rurais), a pedra de Zayit (10 a.C. – demonstra um abecedário bruto, possivelmente por um “aluno”), os óstracos de Samaria (850 a.C.? – conectados ao rei Acabe, do reino do norte), os óstracos de Laquis (590 a.C. – escritos por diferentes oficiais do exército israelita), etc.

Além do mais, as Escrituras em si mesmas pressupõem que a leitura, de uma ou outra maneira, era uma habilidade suficientemente difundida entre toda a população. Veja os pontos abaixo:

O que tudo isso significa? Esses textos e artefatos arqueológicos demonstram que a escrita e leitura eram considerados mais importantes para a nação de Israel do que para outros povos ao redor. De fato, mesmo durante o período persa, as nações da Mesopotâmia e o Egito perpetuavam uma cultura de exaltação da classe dos escribas, que convenientemente servia apenas os interesses dos poucos que conseguiam ler. Esse não é o caso, e nunca foi, com a nação de Israel. A lógica é que um país que democratizava o poder da escrita e da leitura pelas razões que vimos acima certamente teria desenvolvido essa cultura ao longo do tempo, arraigada na revelação divina em Sinai. Acho bem menos provável que essa cultura que prezava tanto sua lei escrita a teria consignado ao papel somente quando se encontravam sem país, sem rei, e sem uma cultura unificada. A revelação e os mandamentos de YHWH no Monte Sinai são forças bem mais poderosas do que a saudade do exílio!


Esse post faz parte de uma série sobre a história do hebraico bíblico. Veja abaixo outros posts na série:

  1. A História do Hebraico Bíblico: como o hebraico revolucionou a história da escrita
  2. A História do Hebraico Bíblico: podemos confiar na cronologia bíblica?
  3. Mais em breve!

1 – Diacrônico = ao longo do tempo, como um filme; sincrônico = instantâneo, como uma fotografia.

2 – Se você quiser saber mais sobre os argumentos no ramo acadêmico, veja os seguintes artigos e livros:

  • Jacobus Naudé, “A Perspective on the Chronological Framework of Biblical Hebrew,” Journal of Northwest Semitic Languages 30 (2004): 119-37.
  • Ian Young, ed. Biblical Hebrew: Studies in Chronology and Typology.
    • Veja também a resenha de Ziony Zevit desse livro.
  • Cynthia L. Miller-Naudé e Ziony Zevit, eds. Diachrony in Biblical Hebrew.

3 – Aaron Demsky, “Writing in Ancient Israel and Early Judaism,” 10-11. Páginas 2-20 em Mikra: Text, Translation, Reading & Interpretation of the Hebrew Bible in Ancient Judaism & Early Christianity.

7 comentários sobre “A História do Hebraico Bíblico: podemos confiar na cronologia bíblica?

  1. Pingback: A História do Hebraico Bíblico: como o hebraico revolucionou a história da escrita – Isso é Hebraico!

    1. Quase Josivaldo! Na verdade, “Davi” escreve-se ou דוד ou דויד. Na verdade, na segunda ficha a palavra é Do’ar Israel (companhia telefônica de Israel). Mas tente pronunciar a palavra na ficha à esquerda: טלפון… dica: o vav é um holem vav!

      Curtido por 1 pessoa

    1. Oi Ronildo,
      Boa pergunta. Acho que você se refere à teoria sincrônica. A teoria diacrônica é a teoria que cristãos conservadores creem.
      Quanto à pergunta do motivos, não sei, já não conheço os autores muito bem. Tenho lido certos livros e artigos, mas não muito. Contudo, diria que eles não “visam” desmerecer o texto bíblico. Ou eles já partem do pressuposto que a Bíblia não é a palavra de Deus ou que, mesmo sendo a palavra de Deus, não importa se houver certas inconsistências nos fatos ou detalhes históricos do texto. De qualquer maneira, o alvo da teoria (pelo menos o alvo explícito) não é desmerecer o texto bíblico – esse depreciamento da veracidade do texto bíblico é apenas parte do que supoem já ao fazer o estudo “científico” da história do texto bíblico.
      Quanto às implicações para a fé, alguns diriam que o que é importante não é a forma do texto bíblico, mas seu conteúdo. Assim, de acordo com eles, não importa se algum detalhe foi exagerado (como números de mortos numa batalha), mas apenas a mensagem principal do texto (assim, numa batalha, o importante é que Deus ajudou seu povo a vencer). O argumento da escrita sincrônica da Bíblia diria que, por exemplo, Isaías, Jeremias, ou até mesmo Moisés não escreveram seus livros. Mas isso vai diretamente contra a palavra da própria Bíblia. Existe um grande problema com essa e muitas outras teorias que descontam a veracidade da Bíblia: ela supõe que nós somos mais donos da verdade do que Deus. Se você se coloca na posição de decidir quais partes da Bíblia fazem parte ou não do “cânon” de veracidade, seja por uma crítica scientífica, antropológica, pós-moderna, ou até teológica, essas críticas se elevaram acima de Deus na sua mente como determinadores da Verdade. Não digo que não podemos ler a Bíblia “com os olhos abertos” – afinal, Deus nos deu a razão – mas precisamos nos lembrar justamente disso: é Deus quem nos deu nossa mente racional. Ele é o dono do raciocínio e da verdade, não nós. Qualquer sistema que utilisarmos para ler e determinar a interpretação correta da Bíblia precisa estar sujeito à Bíblia em si.

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s