Como enriqueço meu conhecimento de hebraico?

Você acha que é fácil enriquecer? Tio Patinhas te diga o contrário! Ele começou com apenas uma moeda de 10 centavos, e se tornou um magnata quaquilhonário às duras penas (literalmente)! Dizem que ele imigrou da Escócia para buscar sua fortuna nos Estados Unidos minando ouro, ralando para encontrar ovos dourados, lutando contra os Irmãos Metralha, viajando o mundo à procura de várias novas riquezas, etc.

TioPatinhas

 

Como Tio Patinhas, é necessário ter certa avareza pelo conhecimento da língua hebraica para se sentir confortável a ponto de poder mergulhar de cara na mesma! Mas quais são algumas dicas para enriquecer nosso conhecimento de hebraico?

Quero começar com a parte mais importante: não existem atalhos para aprender, isso é, realmente assimilar, qualquer língua. O aprendizado é e precisa ser com esforço, difícil, e até mesmo desgastante às vezes. Apenas tenha em mente que o alvo é poder ler e compreender a Palavra de Deus de uma forma ainda mais profunda, e tudo isso valerá a pena!

Leitura Consistente

Qualquer pessoa que já aprendeu uma segunda língua te dirá que a melhor maneira de mantê-la é através de uma prática constante. Veja o que disse Tavis Bolinger, num post que traduzi. Contudo, diante de tantos compromissos diários, raramente temos o tempo para manter um cronograma diário de leituras em outras línguas, não é? Assim, quero compartilhar com vocês meu próprio plano de leituras e depois dar algumas dicas sobre como você mesmo pode criar seu próprio plano de leituras.

Um exemplo: o que eu faço

Não digo o seguinte para me gabar, mas para mostrar que é possível gastar um bom tempo todo dia no estudo das línguas originais:

Dedico uma hora e meia todos os dias (menos Domingo) para o estudo de línguas e fontes para a minha pesquisa de doutorado. Meu cronograma é o seguinte:

  • todo dia, depois de ler minha Bíblia de manhã, tomo meu café e logo vou para o escritório, no qual faço três blocos de 20 minutos cada como segue:
    • 20 minutos lendo o NT em grego,
    • 20 minutos lendo o AT em hebraico
    • e 20 minutos lendo a LXX (Septuaginta) em grego;
  • adicionalmente, nas Segundas, Quartas e Sextas, faço também dois blocos de leitura de 15 minutos cada como segue:
    • 15 minutos estudando francês (teológico)
    • e 15 minutos lendo os pais apostólicos em grego
  • e nas Terças, Quintas e Sábados, faço dois blocos de 15 minutos cada como segue:
    • 15 minutos estudando alemão
    • e 15 minutos lendo as porções bíblicas em aramaico.

A maioria dos dias, termino tudo isso antes das 9 horas e sigo com os demais afazeres do dia. Outras vezes, por causa de contratempos, consigo dedicar esse tempo apenas às altas horas da noite. Mas mesmo assim, tento ser consistente.

Dicas para ter uma leitura consistente

Nem todos podem dedicar o mesmo tempo que gasto com as línguas (afinal, 1,5 horas, 6 dias por semana = 9 horas semanais!), e entendo isso. Afinal de contas, eu preciso dessa imersão diária porque é o meu ganha-pão como aluno de PhD em Novo Testamento. Se não fizesse no mínimo o que faço, não teria a capacidade linguística para ensinar, não é? Mas entendo que a maioria dos meus leitores não são alunos de PhD! Sendo assim, quero dar algumas dicas para diferentes pessoas em diferentes caminhadas do aprendizado do hebraico (ou grego!):

  • Se você é aluno e está apenas começando, ótimo. Continue fazendo suas aulas, estudando com teu professor. Apenas lembre-se que mesmo na fase de aprendizado, você precisa ter contato com o hebraico pelo menos três vezes por semana (na verdade, recomendaria um pouco de estudo todo dia, mas sei que muitas vezes isso é difícil para seminaristas ou outros alunos, devido ao alto número de prazos e responsabilidades de outras aulas).
  • Se você é aluno e já concluiu o primeiro ano de estudos, recomendo que comece de cara a traduzir o texto bíblico. Gaste, no mínimo, 5 minutos por dia tentando traduzir um texto. É claro que é possível também dedicar 10, 15 ou até 30 minutos diários à leitura e tradução da Bíblia, mas aposto que logo logo os 30 minutos se tornarão um fardo. Comece com um tempo que é pouco, mas consistente. Depois de algumas semanas, reavalie o tempo gasto e determine se você pode ou não gastar mais tempo. Contudo, o ponto principal é a consistência.
  • Se você é pastor e:
    • não se lembra muito bem da língua, faça o seguinte: gaste cinco a dez minutos três dias por semana revisando gramática e vocabulário, e outros três por semana em tradução. É até bom se você decidir traduzir um texto que seja pertinente ao teu sermão daquela semana (e.g., se você estiver pregando em Atos 2.14-23, você pode traduzir Joel 2.28-32).
    • domina o hebraico mas precisa de prática, tente gastar uns cinco a dez minutos de silêncio cada dia no seu gabinete (sei que “silêncio no gabinete” é um mito! Mas mesmo assim, tente!) 1) revisando vocabulário e 2) lendo a Bíblia nas línguas originais.
  • Mesmo se você não se encaixa muito bem em uma das categorias acima, o princípio continua sendo o mesmo: estude diariamente – isso é – crie o hábito de estudar, seja vocabulário, gramática, tradução, ou os três ao mesmo tempo. Crie um sistema que funcione para ti e siga-o.

Aliás, segue outra dica: se você conseguir, é bom também ter outros alunos ou pastores traduzindo os mesmos textos contigo – tente se juntarcom outros uma vez por semana por uma ou duas horas para conversar sobre o que encontraram. Esse tipo de atividade, em conjunto, pode render mais resultados do que horas de estudo sozinho.

SãoGerônimonoseuEstudo_Ghirlandaio
San Girolamo nello studio – Domenico Ghirlandaio [São Jerônimo no seu estudo]

Leitura Planejada

Você vai me dizer, “mas Danillo, acabei de aprender hebraico, e até gostaria de ser consistente no meu aprendizado, mas comecei a traduzir os Salmos e achei muito difícil! Não sei onde devo começar! O que você me diz?”

Assim, respondo, “Meu amigo, que bom que você perguntou! Acontece que, por acaso, eu criei duas listas, ou planos de leitura, para aqueles que querem começar a ler as Escrituras nas línguas originais….”

Na verdade, não tem nada de “por acaso”! Gastei um baita tempo criando os gráficos abaixo e depois criando as listas de leituras dos livros “mais fáceis” aos “mais difíceis” baseados neles!

Contudo, tudo o que segue é um trabalho de nerd… Assim, entenderei se você não quiser gastar os próximos 5 a 10 minutos lendo sobre o processo matemático por trás da lista. Sinta-se à vontade de pular ao fim do post e clicar no link que diz “Aqui está a lista”.

 

Se você continuou até aqui, é porque você também é um nerd ou porque teve pena de mim. Aceito os dois! Agora você será um refém cativo à minha exímia e detalhada explicação de como cheguei às minhas conclusões!

Se você clicar em uma das figuras acima, notará que existe um gráfico de “chatice” por “perseverança”, traçando cada livro do AT (vermelho) e do NT (verde) em alguma coordenada. O que isso significa?

Preciso começar com certas questões preliminares:

  1. os gráficos acima foram criados para o aluno que terminou seu primeiro ano de estudo na língua. Assim, considero que o aluno que terminou o primeiro ano de hebraico conhecerá todas as palavras que ocorrem 80 vezes ou mais no AT e que o aluno que terminou o primeiro ano de grego conhecerá todas as palavras que ocorrem 50 vezes ou mais no NT
  2. todos os cálculos utilizados para determinar os pontos acima vieram das estatísticas do BibleWorks 10
  3. tenho quase absoluta certeza (99,9%) de que Esdras e Daniel estão errados (é por isso que têm asteriscos), já que eles contêm um alto número de palavras em aramaico, e não quis dedicar o tempo para mudar minhas equações para acomodar esses dois livros, já que normalmente o aluno que quiser traduzi-los terá que aprender aramaico primeiro.

Bom, permita-me então explicar os eixos do gráfico:

  • “Chatice”
    • Por favor entendam – longe de mim chamar a leitura da Bíblia de “chata”! O critério “chatice” significa que esses livros contêm um número maior de lexemas que ocorrem menos de 80 vezes no AT e menos de 50 vezes no NT. Em outras palavras, para o aluno que acabou de aprender a língua, haverá mais palavras por versículo para buscar em um léxico nesses livros. É por isso que chamo esse critério de “chatice” – porque é muito chato ter que procurar o significado de uma de cada quatro palavras.
    • O número do eixo “chatice” é o número de cada instância de tais lexemas (que ocorrem menos de 80 ou 50 vezes) dividido pelo número total de lexemas no livro.
      • Um lexema, para os propósitos desse cálculo, é uma palavra com apenas um campo semântico, independente da sua combinação morfológica. Assim, em português, “o”, “a”, “os” e “as” todos seriam o mesmo lexema: o artigo definido.
      • Assim, se um livro tivesse apenas 50 lexemas que ocorressem 80 vezes ou menos no AT, de um total de 100 lexemas, seria um livro meio chato de se ler, não? Isso porque a cada dois lexemas, você teria que consultar um léxico para um deles. O índice de “chatice” desse livro seria 0,5.
      • Note acima que Deuteronômio tem um índice de “chatice” de 0,08 (= 2 palavras novas a cada 25) – isso é porque o livro contêm palavras “fáceis”, isto é, palavras que são repetidas bastante ao longo do AT. Já Cânticos tem um índice de 0,27 (≈ 1 palavra nova a cada 4) – existem palavras utilizadas nesse livro que dão dor de cabeça no mais perito doutor de hebraico!
  • “Perseverança”
    • Não me entenda mal! A leitura da Bíblia não é um fardo que precisamos “perseverar”, mas mais uma vez, refiro-me ao trabalho de tradução. É bom termos metas e alvos na tradução da Bíblia, e é mais fácil para iniciantes traduzirem Jonas, Rute, ou outro livro pequeno assim, vendo a luz no fim do túnel, do que começar logo com Jeremias ou Deuteronômio.
    • O número do eixo “perseverança” é o número de cada palavra que ocorre menos de 80 (AT) ou 50 (NT) vezes dividido pelo número total de cada palavra no livro.
      • Esse número basicamente te dirá quantas vezes uma palavra nova “aparece” no texto bíblico em função do número total de palavras. Um número maior aqui significa que tais palavras novas aparecerão com maior frequência e com maiores variações morfológicas, o que geralmente acontece em livros mais longos. Por isso, esse fator é chamado de “perseverança”.

Embora a seta nos gráficos acima mostre uma aproximação do grau de “dificuldade” de se traduzir cada livro, não se esqueça de que existem outros fatores que determinam a “dificuldade” de se traduzir um livro, como uma sintaxe complicada ou certas formas morfológicas raras (e.g. 2 Tessalonicenses é bem mais difícil de se ler do que 1 Tessalonicenses justamente por causa de sua sintaxe e morfologia mais complicada), um gênero literário diferente (e.g. Rute, uma narrativa, é mais fácil em certos sentidos que Malaquias, considerado poesia), ou até mesmo um estilo do autor que seja mais “culto” (e.g. embora apareça “antes” de Atos e Lucas, Hebreus é considerado o livro mais difícil de se traduzir do NT, devido ao estilo de seu autor).

Por causa disso, você notará que a lista que criei com um esquema de leitura do AT e NT não segue os gráficos acima rigorosamente, mas a construí com base nos gráficos e levando em conta outros fatores didáticos. A lista é uma sugestão, mas uma sugestão com base na minha própria experiência ao traduzir esses livros. Se você quiser remexer um pouco aqui e ali, fique à vontade – foi por isso mesmo que forneci os gráficos.

Aqui está a lista.

Pois é, pessoal! Agora você não tem desculpa para não praticar teu hebraico! Vamos lá! Mãos à obra!

Lembre-se apenas que todo esse planejamento e estudo valerá muito pouco sem uma prática deliberada.

8 comentários sobre “Como enriqueço meu conhecimento de hebraico?

  1. Silvio

    Uau! Muito obrigado pelo post, Danilo. Como sempre, relevante e claro.
    Você poderia também, sugerir alguns dicionários, léxicos e afins, recomendáveis à tradução?

    Abraço

    Curtido por 1 pessoa

  2. Paulo Victor

    Ótimo texto! Com certeza um grande incentivo e ferramenta para aqueles que desejam perseverar no estudo do Hebraico. Que Deus continue abençoado sua vida e ministério!

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