Pratique o Hebraico como um Mestre Violinista

Antes de começar, quero esclarecer algumas coisas:

  1. O post a seguir foi traduzido, com permissão, do Blog Acadêmico do Logos, escrito por Tavis Bohlinger. Esse blog tem em mente acadêmicos e alunos de PhD, então não se espante quando ele diz que gastava 4 horas por dia somente estudando o grego! Mesmo gastando 10 minutos diários, como ele descreve abaixo, você poderá render grandes resultados.
  2. O post a seguir foi escrito com foco no grego, mas podemos aplicá-lo também ao hebraico. Se você tiver alguma pergunta sobre como aproveitar esse método (de prática deliberada) ao hebraico, escreva um comentário abaixo, e discutiremos várias opções de estudo.
  3. Não tem nada a ver com nosso texto aqui, mas já produzi mais um vídeo de aramaico! Fique atento para mais vídeos antes do final do mês.

Segue o post traduzido:

Pratique o Grego como um Mestre Violinista

Contemplo diariamente como melhorar minha habilidade de ler em grego e hebraico (bem como Latim, Alemão e Francês). Essas línguas são essenciais para minha carreira como acadêmico da Bíblia mas, como músculos sem exercício, as habilidades linguísticas atrofiam quando não são utilizadas.

O problema é o seguinte: ninguém me ensinou, nem no seminário, nem no meu programa de mestrado, nem nos meus estudos de doutorado como deveria propriamente abordar o estudo de línguas antigas diariamente. Quais são as melhores práticas a empregar cada dia para dominar, não somente “manter”, o grego antigo (ou qualquer outra língua “morta”)?

TocandoViolino

Prática Deliberada

Um lugar no qual tenho buscado inspiração nos meus estudos linguísticos é na música. Ouvi dizer que violinistas precisam praticar várias horas por dia, mas alguns anos atrás, deparei-me com um artigo excepcional por Noa Kageyama, um mestre violinista que combina seu amor por música com sua pesquisa em psicologia.

Seu post é chamado (com razão!) Quantas Horas por Dia Você Deve Praticar [How Many Hours a Day You Should Practice]. Kageyama afirma que o número de horas gasto por dia treinando não significa nada a não ser que aquele treino seja deliberado.

Quando levamos isso em consideração juntamente com a famosa “regra de 10.000 horas” proposta por Anders Ericsson (e popularizada por Malcolm Gladwell), descobrimos que, para alcançar um nível de perito em qualquer coisa, devemos gastar no mínimo 10 anos de prática deliberada. De acordo com Kageyama,

Prática deliberada, ou atenta, é uma atividade sistemática e altamente estruturada, em outras palavras, mais scientífica. Assim, ao invés de uma prática descuidada baseada em tentativa e erro, a prática deliberada será um processo ativo e ponderado no qual testamos hipóteses e de maneira implacável, buscamos soluções para problemas claramente delineados.

Portanto, descubro que é aqui onde tenho errado. Na verdade, existem duas coisas específicas que faço errado nos meus estudos linguísticos que precisam ser abordadas:

  1. Espero resultados demais de pouco tempo – mesmo depois de sete anos de escola superior, ainda sou incapaz de ler toda a Bíblia nas línguas originais sem um dicionário. Decepcionante? Para meus padrões, sim. Mas ainda não alcancei 10 anos. Ainda não gastei tempo suficiente.
  2. Tentando apenas “passar” – Kageyama enfatiza vez e de novo que nossos tempos de prática devem ser deliberados, focalizados, intencionais e planejados. Minha leitura diária no NT grego, por exemplo, não tem sido nenhuma dessas coisas. Normalmente, sento para ler, por exemplo, Romanos 1, tentando passar pelo capítulo da maneira mais rápida possível, parando para analisar um verbo aqui ou ali, procurando palavras que não conheço (fácil de se fazer no Logos), e digo, “Ufa! Tempo para parar e fazer outra coisa, como escrever”. Mas dessa maneira, eu me prejudico, pelo menos em certos aspectos. Estou praticando um método que não renderá resultados a longo termo, me entolarão num padrão de mediocridade, e em última instância me impedirão de alcançar meu alvo. Tenho construído hábitos contraprodutivos e ineficientes.

Já que também sou músico, me identifico com o conselho de Kageyama de gastar tempo nos mínimos detalhes e paradoxalmente, de ir mais devagar para eventualmente acelerar:

Prática deliberada é frequentemente devagar e exige a repetição de pequenas seções específicas de uma habilidade em vez de simplesmente tocar toda a peça. Por exemplo, se você fosse um músico, talvez trabalharia somente na nota inicial de um solo simplesmente para certificar que ela “fala” exatamente da maneira que você quer, em vez de tocar toda a frase antecedente do período.

Grego como o Violino

Há quatro anos, logo antes de deixar Califórnia por Durham, John Barclay sugeriu que lesse todas as epístolas paulinas em grego antes de começar meus estudos com ele. Eu já havia lido muito do NT em grego, mas agora meu supervisor me disse que deveria ler as cartas de Paulo deliberadamente.

Desde então, continuo lendo todas as cartas de Paulo como um exercício diário (não todas, mas apenas alguns capítulos de cada vez!). Leio o grego conscientemente como se praticasse o violino.

Seguem algumas dicas para vocês que querem alcançar uma verdadeira maestria do grego ou qualquer outra língua (é claro, se você quiser estudar mais de uma língua, priorize-a de acordo com sua necessidade):

  1. Reserve um tempo adequado. No verão, entre minha graduação no seminário e minha vinda a Durham, reservei quatro horas por dia para estudar grego. Essas horas eram divididas em sessões de 45-50 minutos, com um pequeno descanso de 5-10 minutos. Mantenha o plano diário mesmo se não conseguir completar os capítulos programados para aquele dia. Se for possível, volte ao seu trabalho mais tarde para terminar as seções que foram programadas para aquele dia.
  2. Registre e revise erros. Escreva toda palavra desconhecida em cada capítulo, revise a lista depois de terminar sua leitura naquela sessão, e revise mais uma ou duas vezes durante o dia. O papel é o seu melhor amigo – a cada impulso de checar o celular, cheque sua lista. Você saberá quando conseguiu dominar o vocabulário de um capítulo quando aquela lista se tornar tão desgastada quanto sua chuteira da 4a série.
  3. Pratique a análise verbal. Verbos são os chefões do grego [e hebraico], então faça a análise verbal de cada verbo que aparece. Sei que parece intenso, mas é bom para você. Se você não for exigente consigo mesmo, quem será? Você precisa ser seu próprio sargento. Mantenha um bloco de papel ao seu lado e consulte-o mais tarde quando seu cérebro estiver frito.
  4. Faça os exercícios. Memorize e/ou revise vocabulário, partes principais, tabelas de sufixos, e paradigmas diariamente. É chato? Enfadonho? Difícil? Sim, sim e sim, mas é necessário para alcançar o domínio da língua. E se violinistas precisam gastar várias horas cada dia tocando a escala musical, o verdadeiro domínio do grego koinê certamente não perde em termos de exigência.
  5. Gramática, gramática, gramática. Reserve uma ou duas horas por dia para rever sua gramática. É claro que você já aprendeu todos esses conceitos antes, mas um violinista não aprende a tocar a oitava somente uma vez e depois já começa a tocar Mozart. Ele pratica incessantemente, sempre buscando tocar de um modo mais limpo e no tom perfeito toda vez. Isso exige muito trabalho, muito trabalho duro. Trabalho deliberado.

Assim, eis aí o trabalho. A primeira pergunta a se fazer é a seguinte: qual é a importância das linguagens bíblicas para você, e o que você está disposto a fazer para dominá-las?

Mas a segunda, e mais importante, é a seguinte: como esse esforço prodigioso servirá outros, na sua vocação como acadêmico cristão, pastor, membro de igreja, ou entusiasta das línguas?

Seja qual for sua resposta, Kageyama oferece um caminho a seguir:

A vida é curta. O tempo é nossa comodidade mais preciosa. Se você vai praticar, é melhor que o faça corretamente.

 

 

 

6 comentários sobre “Pratique o Hebraico como um Mestre Violinista

  1. Hugo Moreira Da Silva

    Olá! Graça e Paz. Eu gostaria de ser mais eficiente em meus estudos, e ter melhor resultado que ando tendo. Grato.
    שלום.

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    1. Pois é, Hugo! Todos nós poderíamos melhorar um pouco mais no nosso estudo. Realmente, como Tavis diz, o primeiro passo é dedicar tempo para praticar deliberadamente!

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  2. Pingback: Como enriqueço meu conhecimento de hebraico? – Isso é Hebraico!

  3. Guttemberg Zayit

    Muito bom Danillo! É o velho jargão “a prática leva a perfeição”. Eu sou apaixonado por artes marciais e desde muito novo pratiquei e levava o meu corpo ao extremo, treinava 4 horas pela manha, 3 a 4 pela tarde e mais 2 a 3 a noite, três turno buscando a perfeição, e o que aprendi com isso? Que a internalização de um idioma é igual ao que eu tanto gosto e confesso que suas aulas e artigos me deram um empurrão quanto a disciplina dos estudos, é como iniciar com os sinais diacríticos e quando perceber já consegue pedalar pelo hebraico sem eles. Muito grato pela sua disponibilidade em nos ajudar e um caloroso תודה רבה.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Pois é, Guttemberg….Não somente a prática, mas a prática deliberada leva à perfeição.
      Nossa! Quanta prática de artes marciais! Que bom que você recebeu esse “empurrão” aos estudos! Espero poder ajudar mais ainda no futuro.
      שׁלום

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  4. Pingback: Como aumento minha fluência em hebraico? – Isso é Hebraico!

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