Resenha: Hebraico Bíblico, parte 4 (ou, como ninguém é perfeito)

*Nota: copiei abaixo algumas coisas que já coloquei na minha resenha um pouco mais formal para a Fides Reformata.

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“A flor perfeita é uma coisa rara. É possível gastar toda a vida procurando-a e não seria uma vida desperdiçada.” – Katsumoto Morisugu, em O Último Samurai

Bom, acho que já falei de muitas coisas boas da gramática de Rocine, e realmente acho que ela é muito boa. Contudo, vivemos num mundo caído e, mesmo sendo criados à imagem de Deus, não O somos. Ninguém é perfeito. Existem sim alguns problemas com a gramática de Rocine, e nesse post vou resumir alguns dos problemas que tenho encontrado.

  1. Problemas de tradução e edição. Embora a tradução foi bem-feita em muitos aspectos, existem vários errinhos técnicos que escaparam aos editores e que potencialmente confundirão o aluno:
    • O uso de exemplos fonéticos que não fazem sentido.
      Exemplo:1a
      • Vou dar três exemplos aqui. O Hê, aparentemente, tem som de /R/ em rato (veja o círculo verde), e o Resh tem som de /r/ em ar (veja o círculo vermelho). Mas qual é a diferença entre esses dois sons em português? Talvez algum dialeto (de Portugal? do sul do Brasil?) faria uma diferenciação entre esses dois sons, mas eu pronuncio com o mesmo som: o /h/. O Hê deve sim ser pronunciado com esse som, mas o resh deve ser ou um /ʁ/ ou um /r/. Aliás, aqui está outro problema – cada som que é colocado entre barras inclinadas não parece ter um referente correto. Eu usei símbolos do AFI, mas os símbolos acima são meio aleatórios e não ajudam muito. Veja só o som dado para o Shin /ch/ (círculo azul) e compare com o som do Caf ou Chet. Se seguisse o AFI, o símbolo deveria ser /ʃ/.
      • Existem alguns problemas assim também com as vogais, mas não vou mostrar isso em detalhes aqui…
      • Qual é o problema com isso? O aluno autodidata não conseguirá, por essa página, saber como pronunciar os sons corretamente. Mas se seu objetivo é só ler o texto, uns errinhos de pronúncia aqui e ali não te impedirão muito.
    • O daguesh, quando não acompanhado por uma consoante, é frequentemente escrito como um holem (isso é comum a partir da segunda lição).
      Exemplo:
      1b1.jpg
      Aparece na lição 1
          
      1b2.jpg
      Aparece na lição 3
      • Qual é o problema com isso? Vav e holem são coisas diferentes. Sei que é meio chato da minha parte, mas faz uma diferença. O artigo não é pronunciado “Ha-ô”, mas “Ha [consoante duplicada]”.
    • Algumas frases idênticas são traduzidas de formas diferentes.
      Exemplo:
      1c1.jpg
      Aparece na página 44
      1c2.jpg
      Aparece na página 327
      • Qual é o problema com isso? O problema é que eu não me lembro de Herb; eu fiquei conhecendo o João, mas Herb não. Mais uma vez, esse problema não é muito debilitador, mas ele existe.
    • Algumas referências a páginas no livro estão incorretas
      Exemplo: não vou mostrar uma foto aqui, mas na página 33, a tradução diz que o vocabulário começa na página 543. Contudo, esse vocabulário só começa na pág. 561. O que começa na página 543 é uma tabela verbal.
      • Qual é o problema com isso? existe um grande potencial para perda de tempo do aluno aqui, pois a página 543 contém tabelas que não devem ser memorizadas, mas apenas consultadas, e não serão relevantes para o estudo do aluno no início. Imagina o coitado do aluno memorizando uma tabelona de verbos e chegando na sala de aula para receber uma prova com palavras que ele não conhece!
      • Não sei se há outro lugar com paginação errada, mas só de encontrar um erro assim, já me dá um frio na barriga pelos alunos!
    • Muitos vocábulos estão errados.
      Exemplos:
      • “Palestina” para פְּלִשְׁתִּי – deveria ser “filisteu”
      • “floresta” para עֵץ – deveria ser “madeira”
      • “letra” para סֵ֫פֶר – deveria ser “carta”
      • “primavera” para עַ֫יִן – deveria ser “fonte”
      • Qual é o problema com isso? ora bolas, eu quero aprender o significado correto da palavra!
    • Mas, de qualquer forma, lembre-se que esses são problemas de tradução e edição e, em geral, não devem causar muito dano ao aluno perspicaz ou professor atento. E aqui acho importante salientar a necessidade de um professor atento, já que problemas como o problema dos vocábulos não poderá ser tratado pelo aluno em si.
  2. Problema de layout. A própria organização do material de acordo com o autor é um pouco densa. Rocine escreve em parágrafos, com fonte pequena, e poucas figuras/tabelas. Isso pode gerar certa ansiedade para os alunos. Às vezes o material na gramática de Rocine pode ser um pouco denso, principalmente para alunos que não entendem como línguas funcionam. Como cada lição aborda vários assuntos, seria melhor se houvesse alguma forma de revisar todo o conteúdo aprendido de uma maneira simplificada ao final de certas lições ou seções. Como não há na gramática em si (que já ultrapassa 600 páginas), para melhor aproveitar o material de Rocine, é necessário que o professor esteja atento para como simplificar e salientar as partes corretas aos seus alunos.
  3. Difícil de organizar para um ano de estudo. Algumas pessoas usam essa gramática para ensinar em um ano, outras a ensinam em um ano e meio, mas 50 lições é difícil de dividir em um programa semestral, já que a maioria dos semestres tem entre 12 e 17 semanas de aulas. Não dá para dividir lições por dias ou semanas. Mas, mais uma vez, isso é uma questão de organização, e cabe ao professor dividir o material da melhor forma possível.
  4. Nosso contexto brasileiro não fornece uma boa base linguística para apreciar ou até mesmo compreender algumas partes da gramática. Talvez esse seja o maior problema da gramática. A gramática de Rocine trabalha com conceitos de análise do discurso, que já vem sendo desenvolvido há muitos anos em países de fala inglesa. Contudo, em português, muitos dos termos que Rocine usa nunca foram usados em literatura exegética (pobre do tradutor!). Mesmo assim, ele explica todos esses conceitos e, para o leitor atento, não haverá muito problema.

Bom, aí estão os problemas que eu notei com a gramática de Rocine. Vou usá-la esse ano no IBEL, onde leciono, e tenho certeza que notarei alguns outros probleminhas. Mesmo assim, não acho que nenhum dos problemas mencionados acima são insuperáveis, principalmente à vista dos benefícios que podemos receber dela (como já disse em posts anteriores). Aliás, fica aqui um aviso para você, professor. Eu pretendo criar alguns vídeos explicando mais profundamente algumas das partes mencionadas no #4 para ajudar meus alunos e, espero, outros alunos e professores. Já que a análise do discurso não é uma disciplina muito bem conhecida no Brasil, espero que esses vídeos possam ser prestativos!

Se você quiser ver as partes mais positivas dessa resenha, clique nos links abaixo:


4 comentários sobre “Resenha: Hebraico Bíblico, parte 4 (ou, como ninguém é perfeito)

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