“Não atarás a boca ao boi” – será que Paulo distorce o Antigo Testamento?

Certamente vários seminaristas já ouviram alguns dos abusos resultantes do método alegórico na história da igreja. Por exemplo, Orígenes disse que certamente o cordão escarlata de Raabe (Juízes 2) significava que ela havia confiado no sangue de Cristo para sua salvação. Outros Pais da Igreja também praticavam esse método, inclusive Justino Mártir, que disse que a história de Raabe nos ensina que nós, todos meretrizes e pecadores no mundo, precisamos demonstrar publicamente nossa confiança no precioso sangue de Cristo, assim como Raabe. E assim continuam vários outros exemplos alegóricos…

De qualquer forma, todos devemos ter cuidado para não cometer os mesmos erros hermenêuticos que vemos em alguns Pais da Igreja. Mas… e se não foram só alguns Pais da Igreja que interpretaram mal a Bíblia mas, inclusive, os próprios apóstolos? E se Paulo interpretou o AT alegoricamente?

Millstone
Um moinho de pedra. Um boi é amarrado de um lado e roda em volta para debulhar o grão. Não consegui tirar uma foto de um moinho dos tempos de Moisés, então essa foto aqui é de um moinho da Coreia do Sul… mas a ideia é a mesma!

Vou fugir um pouco do âmbito das nossas discussões aqui no Isso é Hebraico, mas o artigo hoje também não cabe 100% no Isso é Grego. Quero falar sobre o uso do Antigo Testamento no Novo. A pergunta é a seguinte: como Paulo usa Deuteronômio 25.4 em 1 Coríntios 9.9-10 e 1 Timóteo 5.18? Veja os textos abaixo na tradução Almeida Revista e Atualizada:

Deuteronômio 25.4 – Não atarás a boca ao boi quando debulha.

1 Coríntios 9.9-10 – Porque na lei de Moisés está escrito: Não atarás a boca ao boi, quando pisa o trigo. Acaso, é com bois que Deus se preocupa? Ou é, seguramente, por nós que ele o diz? Certo que é por nós que está escrito; pois o que lavra cumpre fazê-lo com esperança; o que pisa o trigo faça-o na esperança de receber a parte que lhe é devida.

1 Timóteo 5.17-18 – Devem ser considerados merecedores de dobrados honorários os presbíteros que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na palavra e no ensino. Pois a Escritura declara: Não amordaces o boi, quando pisa o trigo. E ainda: O trabalhador é digno do seu salário.

Antes de começar, quero deixar claro que os argumentos a seguir são os que creio ser a melhor forma de decifrarmos o uso do Antigo Testamento no Novo, mas que existem outros irmãos crentes e firmes em Deus que discordam da minha opinião. Se você discordar, quero te convidar a escrever como e porque nos comentários abaixo ou na nossa página no Facebook: Isso é Exegese. Não digo isso para ser polêmico, mas porque realmente creio que esse assunto é importante, e acho que existe espaço para um “debate santo” a fim de crescermos juntos na nossa interpretação das Sagradas Escrituras.

Pergunta: Será que Paulo desconsidera o significado original de Deuteronômio 25.4?

Uma das questões principais para nossa discussão é se o autor do NT faz o que nós chamamos de uma “exegese gramático-histórica”. Isso é, será que Paulo está usando o texto do AT levando em consideração todo seu contexto e significado original? Nessa seção do nosso post, vou suscitar alguns argumentos que dizem que Paulo desconsidera o significado original de Deuteronômio 25.4.

O texto de Deuteronômio 25.4 claramente fala de bois, não de homens!

Paulo claramente diz que o texto de Deuteronômio 25.4 não diz respeito a bois, mas quando olhamos o texto, é difícil chegar a outra conclusão, não é? Afinal, pode existir outra razão para não atar a boca do coitado do boi a não ser para deixar que ele coma um pouco do trigo enquanto o debulha?

Se olharmos o contexto de Deuteronômio 25.4, vemos que existem várias leis sociais que tratam de como lidar com pessoas em geral:

  • Deuteronômio 24.5 – uma lei para preservar a felicidade do recém-casado
  • Deuteronômio 24.6 – uma lei protegendo materiais necessários para a subsistência
  • Deuteronômio 24.7 – uma lei ordenando a morte do ladrão
  • Deuteronômio 24.8-9 – uma lembrança de cuidar da lepra da maneira devida
  • Deuteronômio 24.10-13 – leis sobre penhores para pessoas pobres
  • Deuteronômio 24.14-15 – uma lei sobre como tratar o trabalhador diário
  • Deuteronômio 24.16 – uma lei mandando que apenas o criminoso pague por seu crime
  • Deuteronômio 24.17-18 – uma lei protegendo o estrangeiro, viúvas e órfãos
  • Deuteronômio 24.19-22 – uma lei dizendo que um pouco de comida deveria ser deixado nos campos para o estrangeiro, o órfão e a viúva
  • Deuteronômio 25.1-3 – uma lei acerca da punição de criminosos
  • Deuteronômio 25.5-10 – a lei do levirato, para garantir os direitos de uma viúva e da descendência do esposo morto
  • Deuteronômio 25.11-12 – uma lei (estranha!) para preservar a privacidade das partes privadas de um homem
  • Deuteronômio 25.13-16 – uma lei sobre pesos e medidas justos
  • Deuteronômio 25.17-19 – um mandamento para destruir a memória de Amaleque, nação traiçoeira

Como todas essas leis expressam um caráter humanitário (isso é, de como tratar bem outros seres humanos) é fácil entender Deuteronômio 25.4 também como um texto de caráter humanitário ou até ecológico (isso é, de como tratar bem da natureza e, nesse caso, de um boi), dizendo que deveria existir permissão para o boi comer. Poderíamos até generalizar a lei dizendo algo como “cuida bem dos animais que trabalham para ti”.

Paulo claramente aplica o texto a homens, não a bois!

No texto de 1 Timóteo, Paulo aplica o texto de Deuteronômio 25.4 diretamente ao ministro do evangelho. Contudo, é possível que aqui Paulo não diga que Deuteronômio 25.4 fala sobre seres humanos, mas que ele extrapola um princípio genérico de uma lei específica. Assim, Paulo não distorce o significado de Deuteronômio 25.4, mas apenas o aplica de uma maneira mais ampla. Até aqui, tudo bem, certo?

O problema maior está em 1 Coríntios 9, no qual Paulo diz, “Acaso, é com bois que Deus se preocupa?… Certo que é por nós que está escrito”! Em outras palavras, Paulo diz aqui que o texto não fala sobre bois, mas sobre o ser humano – e nem é qualquer ser humano, mas sobre Paulo e os coríntios em específico.

Conclusão: Paulo não leva em consideração o contexto original do texto

Parece claro que Paulo não faz o que nós chamaríamos de uma exegese do texto, mas que ele está usando métodos de interpretação da Bíblia que eram comuns em seu tempo. Os rabinos frequentemente usavam um tipo de interpretação chamado midrash, e parte da midrash envolvia o que era chamado de halakha, uma interpretação que aplicava o texto do AT diretamente ao contexto do leitor, ao seu caminho (por isso, halakha, de הלך!). Paulo parece justamente fazer esse tipo de interpretação, uma espécie de alegoria. Não podemos dizer que Paulo estava errado, mas que Paulo era um homem do seu tempo, contextualizado na cultura na qual aprendeu a ler a Bíblia, não é?

Resposta: Não creio que Paulo distorce o significado original de Deuteronômio 25.4

O tipo de argumento acima na verdade é bem comum nos meios evangélicos. Um dos defensores mais fortes de que Paulo (e os outros escritores do NT) nem sempre interpretavam o AT de uma forma que hoje chamaríamos de “gramático-histórica” é Richard Longenecker (veja Biblical Exegesis in the Apostolic Period). Contudo, creio que esse argumento está errado de três formas: 1) o contexto original da citação precisa ser interpretado mais meticulosamente, 2) precisamos prestar maior atenção nas palavras de Paulo e, em conclusão, 3) é necessário pensar seriamente sobre as consequências de dizer que Paulo era “um homem do seu tempo” no que diz à sua metodologia de interpretação bíblica.

Será que  Deuteronômio 25.4 se refere apenas a bois?

Como o argumento acima demonstrou, o contexto de Deuteronômio 24 e 25 fala sobre leis sociais entre seres humanos. Assim, se Deuteronômio 25.4 falasse mesmo sobre como cuidar de bois, seria o único texto em seu contexto que não poderia ser aplicado a seres humanos. Isso parece estranho, não?

Na verdade, um exame do texto em si demonstra que a preocupação principal do texto é econômica, não ecológica. Sendo econômica, ela lida com o boi como propriedade de uma pessoa, e assim se alinha com as demais leis no contexto mais amplo do versículo. Como esse é um blog de hebraico, vamos dar uma olhada no texto massorético:

Deut25.4Heb

O texto é bem simples: uma partícula negativa (לֹא), um verbo Qal imperfeito na segunda pessoa masculina singular (תַחְסֹם = amordaçar), um objeto verbal (שׁוֹר), e um complemento verbal, composto da preposição בְּ com o infinitivo דּוּשׁ (= debulhar) e um sufixo pronominal (וֹ). Uma tradução bem rígida seria algo como “Não amordaçarás um boi no seu debulhar”, mas as traduções que temos já explicam bem o sentido do texto.

Quem é o dono do boi? Permita-me fazer uma pergunta: de acordo com o texto que vimos, de quem é esse boi? O hebraico não diz nada sobre quem é o dono, mas supomos que a lei é direcionada ao dono do boi, não é?

Entretanto, não faz sentido um dono de um boi esfomear seu próprio animal apenas para ter um pouco mais de grão. Em uma sociedade agrária, um boi vale muito mais do que um pouco de cereal. Na verdade, Jan Verbruggen (veja seu artigo aqui) diz que é bem mais provável que esse boi fosse emprestado ou alugado. Afinal, se o boi não te pertence, é possível que você seja tentado a guardar todo o grão para si mesmo e a devolver o boi em piores condições, já que ele não é seu!

O tipo de lei. “Mas Danillo, o texto não diz que o boi é alugado!” É verdade; não diz. Contudo, essa lei não é uma lei casuística, mas uma lei apodictica.

“Peraí! Apo-quê??”

Permita-me explicar: uma lei casuística é uma lei que depende de certas condições. Ela será bem específica. Veja abaixo um exemplo de um conjunto de leis casuísticas que também falam sobre bois. O texto bíblico vem de Êxodo 21.28-36.

[Observação: os números abaixo se referem às leis, não aos versículos do texto]

1 Se algum boi chifrar homem ou mulher, que morra, o boi será apedrejado, e não lhe comerão a carne; mas o dono do boi será absolvido.

1a Mas, se o boi, dantes, era dado a chifrar, e o seu dono era disso conhecedor e não o prendeu, e o boi matar homem ou mulher, o boi será apedrejado, e também será morto o seu dono.

1aa Se lhe for exigido resgate, dará, então, como resgate da sua vida tudo o que lhe for exigido. Quer tenha chifrado um filho, quer tenha chifrado uma filha, este julgamento lhe será aplicado.

1b Se o boi chifrar um escravo ou uma escrava, dar-se-ão trinta siclos de prata ao senhor destes, e o boi será apedrejado.

2 Se alguém deixar aberta uma cova ou se alguém cavar uma cova e não a tapar, e nela cair boi ou jumento, o dono da cova o pagará, pagará dinheiro ao seu dono, mas o animal morto será seu.

3 Se um boi de um homem ferir o boi de outro, e o boi ferido morrer, venderão o boi vivo e repartirão o valor; e dividirão entre si o boi morto.

3a Mas, se for notório que o boi era já, dantes, chifrador, e o seu dono não o prendeu, certamente, pagará boi por boi; porém o morto será seu.

Note que cada uma dessas leis começa com uma condição: “se”.

Bom, voltemos ao assunto: leis casuísticas e apodicticas. Vimos que a lei casuística é condicional e específica. Já a lei apodictica é uma lei que é verdade em toda circunstância. Os dez mandamentos demonstram isso muito bem. Assim, “não adulterarás” é uma lei que está sempre regente. Não existe nenhuma condição como “se você for convidado do teu vizinho, não adulterarás” ou “se o marido da tua vizinha for bonito, não adulterarás”. O adultério é proibido em todas as situações e muitas outras.

A lei de Deuteronômio 25.4 é apodictica e segue o mesmo padrão das leis apodicticas dos dez mandamentos: לֹא + um verbo imperfeito (+ um complemento verbal). Assim, é bem mais provável que ela refira a uma circunstância que tentaria o homem a pecar: quando o boi não é teu, porque não “dar um jeitinho” de lucrar mais?

Como o boi era visto no AT? Note também que nas leis casuísticas acima, quando um boi é mencionado, ele não é mencionado principalmente como um animal, mas como propriedade de uma pessoa. É claro que ele é um animal, e deve ser cuidado como tal, mas o AT claramente dá mais importância ao aspecto econômico do boi (e o animal doméstico em geral) do que seu aspecto como um ser vivente ou “bicho de estimação”.

Alguns comentaristas apontam para Deuteronômio 22.1 para mostrar que o boi tinha certos “direitos” como animal. Contudo, veja só o texto:

Vendo extraviado o boi ou a ovelha de teu irmão, não te furtarás a eles; restituí-los-ás, sem falta, a teu irmão.

O objetivo dessa lei não é de cuidar do animal extraviado – isso é um benefício suplementar. O ponto principal é de devolver o animal “a teu irmão”. Vidas humanas e seus direitos econômicos são mais importantes. Não digo isso como um antipático que odeia animais, mas quero mostrar que mesmo nessas leis que falam sobre como cuidar de animais (concordo plenamente com Provérbios 22.10!), a ênfase da Bíblia está no ser humano, que vale muito mais.

Conclusão (Ufa!). Por causa dessas razões, creio que é bem mais provável que Deuteronômio 25.4 fale sobre a questão econômica: não danifique a “ferramenta” daquele que a empresta a você. Isso faz sentido no contexto, já que todas as leis que vimos nessa seção de Deuteronômio regem o comportamento entre seres humanos.

Como é que Paulo realmente interpreta esse texto?

[Prometo que serei mais breve no resto do post!]

Se realmente interpretamos o texto acima da maneira correta, Paulo faz uma interpretação completamente contextual e correta do texto de Deuteronômio 25.4, que já fala sobre o respeito econômico que devemos ter pelo trabalho (ou os efeitos do trabalho) de outros. Assim, como devemos cuidar bem de um boi que nos foi emprestado ou alugado, também devemos cuidar bem dos ministros que trabalham por nós. O pastor ou presbítero que zela por ti em oração, com conselhos bíblicos, com visitas em hospitais, com horas de preparo para pregar ou ensinar a santa Palavra de Deus, presta um serviço indispensável para tua vida espiritual, assim como o boi (ou o dono que o alugou a ti) prestava um serviço indispensável para alimentar aqueles que o usavam para debulhar o trigo. Paulo aplica o texto da mesma forma que ele foi utilizado inicialmente: demonstrando o direito e a justiça do trabalhador de receber por seus trabalhos.

Será que Paulo distorce o Antigo Testamento em outros lugares?

“Tudo bem, Danillo. Concordo contigo que aqui Paulo não faz uma exegese rabínica, mas uma exegese contextual. Mas não existem outros textos onde podemos dizer que Paulo (ou outro autor no NT) fez uma interpretação que desconsidera o significado original do texto do AT? Aliás, os autores do NT eram inspirados. Poderiam dizer o que quisessem porque o Espírito Santo fez com que todas suas palavras fossem verdadeiras, não é?”

Acho que o problema aqui é o clássico “diga o que eu falo, não o que faço”. Não creio que os autores do NT deixaram um exemplo e mandaram que fizéssemos o oposto. Afinal, foi Paulo mesmo que disse “procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” a Timóteo! Como ele poderia dizer isso se ele mesmo não manejava bem a palavra???

Concordo plenamente que os autores do NT eram inspirados. Contudo, isso não significa que o Espírito Santo “canonize” erros de interpretação! Acho que devemos ser mais zelosos na nossa interpretação tanto do AT quanto do NT para determinar o que realmente está em jogo.

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