Atualização: Resenha de Rocine

Bom, depois das minhas resenhas sobre a gramática de Rocine (veja a primeira aqui), decidi usá-la com meus alunos esse ano no IBEL. É claro que tivemos contra-tempos, como creio que toda instituição de ensino tem esses dias, mas conseguimos terminar o primeiro semestre.

Aqui está o remanescente dos alunos (tínhamos outros dois que não puderam comparecer no dia da foto). Não sei se a felicidade deles aqui registrada se deve ao aprendizado da língua ou à conclusão do semestre, mas imagino que a primeira opção está correta.

Segue abaixo então: 1) um resumo das aulas e da nossa experiência, 2) o bom, 3) o ruim, 4) o feio e 5) uma reavaliação da gramática de Rocine?

Nossa experiência com Rocine

Como hebraico não faz parte do conteúdo programático do IBEL, eu anunciei que ensinaria a língua como um curso optativo, para quem quisesse e tivesse o tempo para fazê-lo. Começamos o semestre bem, com mais de 20 alunos, se não me engano. Eu avisei a todos que seria um curso puxado, mas que valeria a pena. Já na segunda aula, quando pedi que fizessem um teste para ver se haviam memorizado mesmo o alfabeto como pedi no primeiro dia, alguns desistiram. Logo baixamos para uns 15 alunos.

Depois de duas semanas, tivemos nosso curso interrompido pela pandemia, e os alunos que normalmente moram aqui no IBEL (nosso curso segue um regime de internato) tiveram que regressar às suas casas em diversas partes do Brasil. Com as novas responsabilidades que enfrentaram em seus lares e suas igrejas, bem como problemas de conexão pela internet, outros alunos também tiveram que sair, e ficamos com um total de 10 alunos.

Eu também meio que me virei com o google classroom como plataforma para o material do curso, e os alunos te dirão que os testes nessa plataforma não são 100% justos. Mas achei legal que todos focaram mais no aprendizado da língua do que nas suas notas (que aliás nem tabulei ainda), e fizeram ótimo progresso. Ao final do primeiro semestre, fizemos os primeiros 30 capítulos da gramática de Rocine, e creio que os alunos pegaram bem o material.

O bom

1. Muito material aprendido

Os alunos aprenderam muitas coisas, como todas as formas verbais (menos o infinitivo absoluto) do Qal, Piel e Hifil, vários padrões discursivos do discurso direto e quase todos os padrões da narrativa histórica. Memorizaram já 230 palavras comuns do hebraico bíblico, e estão bem encaminhados para o segundo semestre. Fiquei bastante feliz de ver seu progresso.

O bom da gramática de Rocine é que ela proporciona o aprendizado desses vários assuntos diferentes de uma forma intuitiva. Em cada lição, o aluno aprende um elemento discursivo e outro elemento morfológico do hebraico. Com essa mistura, a gramática é ensinada em seu contexto, o que facilita a compreensão e memorização de muitos dados.

2. Foco na análise de discurso

Como o subtítulo da gramática já diz (uma nova abordagem utilizando análise do discurso), Rocine ensina ao aluno como ler um texto a partir do todo. Isso é muito importante na língua hebraica, já que cada forma verbal encontra um uso específico em determinado tipo de discurso. Eu estou aprendendo bastante também com esse novo formato do Rocine.

3. Tradução e exegese de porções maiores de texto

Já na lição 15, os alunos começam a traduzir porções maiores de textos. Dessa forma, o aprendizado do hebraico já se torna, desde o “início” do curso, um exercício prático e útil para o aluno. É claro que muitas gramáticas incluem um versículo aqui ou outro ali para tradução. Mas o foco de Rocine não é tradução e sim compreensão, e por isso os alunos já traduzem porções grandes do texto hebraico ao longo do seu aprendizado da língua. Meus alunos já viram e ficaram empolgadíssimos com esse aspecto promissor da gramática de Rocine. Não tem como subestimar esse importantíssimo vínculo do aprendizado com sua aplicação prática para a pedagogia do hebraico bíblico!

O ruim

1. Os alunos do Rocine deveriam ser super-dotados

Cara, vou ser bem direto aqui. Não tem como um aluno normal (ou mesmo abnormal) completar todos os exercícios nesse livro dentro de um ano! Ou os alunos do Rocine não tinham mais nada para fazer com suas vidas ou eles eram todos gênios de QI 230.

Outra questão relacionada a essa é que certas lições têm mais exercícios do que outras, ou pelo menos exercícios que são notavelmente mais difíceis do que outros. Dessa forma, às vezes tínhamos que dar uma semana a mais para certas lições, e outras conseguíamos terminar mais rapidamente. Portanto, ao meu ver, ou faltou ao Rocine uma atenção ao ritmo do aluno ao compor essa gramática, ou ele sabia justamente onde apertar o passo e onde diminuir o avanço. É claro que eu acho a segunda opção mais provável, mas seria bom se ele tivesse explicado isso na gramática em si!

2. Faltaram resumos

Muitas vezes durante o semestre, tive que criar resumos do material que havíamos aprendido para meus alunos. A gramática de Rocine segue um esquema muito bom, mas seria bom também se ele tivesse tabelas resumindo o material aprendido, especialmente quando ele termina determinado assunto, como a conjugação qatal no qal. A falta desses resumos é difícil para o aluno que gosta de sintetizar tudo.

Coloquei alguns desses resumos (e continuarei colocando) na página de recursos desse site.

3. Erros tipográficos e de vocabulário

Na própria gramática de Rocine (em inglês, não sua tradução), haviam lugares nos quais um erro tipográfico ou a inclusão de uma palavra que o aluno não havia aprendido ainda dificultaram o aprendizado.

O feio

Nessa categoria, sinto muito, Cultura Cristã. Eu gosto muito de você como editora, bem como dos livros que você publica, mas a tradução e edição desse livro impossibilitam um aluno a aprender a língua hebraica sem a ajuda de um professor. Além dos erros que destaquei aqui, encontramos vários outros ao longo do semestre. Muitos deles eram do mesmo tipo que mencionei na minha resenha, mas quero destacar outros aqui:

1. “Clause” não é “cláusula”, mas “oração”

O tradutor escolheu “cláusula” para traduzir a palavra “clause” ao longo do livro. Ele até foi consistente nisso, o que é bom. Mas “cláusula” em português não é um termo primeiramente linguístico, mas legal. A palavra “oração” já é utilizada em nossas escolas para se referir a “todo enunciado linguístico dotado de sentido [em que haja] a presença do verbo ou de uma locução verbal”1. “Cláusula” é uma palavra que confunde o aluno desnecessariamente.

2. O hebraico estava errado em vários exercícios

Entendo que existe MUITO material para ser revisado em qualquer gramática, mas os erros dessa também foram desproporcionais ao tamanho do livro. Muitas vezes meus alunos não conseguiam traduzir certas frases ou exercícios por erro de edição. No final do semestre, eu tinha que fazer todo o trabalho antecipadamente, antes de pedir que os alunos a fizessem, para verificar se não haviam erros. A cada duas lições, eu encontrava no mínimo dois ou três erros.

3. Frequentes erros de ditografia ou tipografia

Ditografia é quando um copista (ou nesse caso, o tradutor) repete uma palavra, sílaba, ou letra que deveria ser escrito apenas uma vez. No caso, esse erro se encontra no uso de “consecutivo” em vez de “conjuntivo” na página 145 e na inclusão de daguesh na página 157 onde não deveria estar.

Erros tipográficos eu já havia mencionado na última resenha, mas preciso destacar outros bem graves aqui: na página 166, diz “é o sufixo pronominal na *terceira* pessoa do plural comum e significa nosso“; na página 221, há um erro grave de tradução – “entregar”, quando deveria ser “comer”. Há outros lugares também (220 e 234) no qual o tradutor escreve o gênero ou o número errado para certas morfologias.

4. Problemas típicos de uma gramática traduzida

Em certos lugares, o tradutor tenta ser fiel ao inglês, mas isso vem à custa do português. Por exemplo, na página 199, ele não menciona que o subjuntivo em português é uma boa tradução para o yiqtol. Em vez disso, ele traduz uma longa seção que fala sobre a importância dos “verbos auxiliares modais” em português. Contudo, eles não são tão importantes em português como são em inglês, uma vez que o modo subjuntivo em inglês já quase não existe, e a língua cotidiana precisa desses verbos para comunicar o modo subjuntivo. Faltou aqui uma compreensão da diferença entre a gramática inglesa e a gramática portuguesa.

Bom, infelizmente, existem vários outros erros (principalmente com o vocabulário!), mas não é necessário revisá-los todos aqui. Um dos meus projetos para este ano é de ter uma lista relatando todos esses erros, caso alguém queira usar a gramática e estar cientes desses erros, mas teria sido bem melhor se a editora tivesse se esmerado mais nesse quesito!

Uma re-avaliação

Então, o que será que acho mesmo da gramática de Bryan Rocine? Sei que, com minha lista de problemas acima, parece que estou voltando atrás e renunciando a gramática como um todo. Ao contrário! Embora hajam vários problemas, continuo dizendo o que disse na minha resenha publicada na Fides Reformata: “com certeza haverá certa reticência do professor de hebraico em promover uma mudança à luz da gramática de Rocine, o que pode até ser um tanto difícil no início. Contudo, o tempo investido na familiarização com esse livro não será gasto em vão. O potencial dessa gramática em termos de sua pedagogia e foco no texto hebraico por si já compensa não somente o dinheiro, mas também o tempo dedicado ao seu estudo. Esta gramática é extremamente bem-vinda à educação teológica brasileira”.

Adiciono apenas uma ressalva: infelizmente, os problemas de tradução e edição impossibilitam alguém a usar essa gramática para aprender o hebraico sozinhos. Recomendo que a Cultura Cristã faça uma nova edição, corrigindo essas falhas que, em muitos lugares, são graves!

2 comentários sobre “Atualização: Resenha de Rocine

  1. Diego Lima

    Uma pena viu, tantos erros. Espero que saia uma revisão urgente. Será a próxima gramática hebraica que vou estudar. E, sem dúvida, muitos também irão adquirir essa obra.

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