Resenha: Hebraico Bíblico, parte 1 (ou, como descobri que ainda não tínhamos inventado a roda…)

*Nota: para não reinventar a roda, copiei algumas coisas que já coloquei numa resenha um pouco mais formal que enviarei para a Fides Reformata. Mas essa resenha aqui no blog foi bem mais divertida de se escrever!

Algumas pessoas às vezes me perguntam, “Danillo, gostei das suas vídeo-aulas. Quando você vai publicar sua gramática de hebraico?”

Não é por preguiça, mas por desânimo, que não quero publicar mais uma gramática de hebraico. Não tenho muito interesse na multiplicação de gramáticas de línguas bíblicas. Em geral, minha resposta tem sido, “Pra quê? A roda já foi inventada e já existem várias gramáticas boas de hebraico em português, algumas delas traduzidas e outras até mesmo escritas por brasileiros. Não vejo necessidade de reinventar a roda. Mesmo que eu tenha algumas diferenças com essas gramáticas, é só usar a roda já inventada de uma forma um pouco mais eficiente. Não acho necessário escrever uma gramática nova.”

Bom, em 2019 foi traduzida uma gramática nova ao português, escrita por Bryan M. Rocine, e um dos meus leitores (obrigado, Fábio!) me perguntou acerca dela. Como não conhecia a gramática (sabia que Rocine é um ótimo acadêmico da língua hebraica, mas além disso, não conhecia sua gramática), fiquei meio receioso de comprar o livro (não porque é muito caro, mas porque minha esposa restringiu meu orçamento para livros!). Bom… meus receios desapareceram quando pedi e recebi uma cópia para revisão da Editora Cultura Cristã (obrigado!). Decidi então conhecer esta nova “roda” que entrava no mercado brasileiro.

Para minha completa surpresa, descobri que Rocine não estava em nada reinventando a roda, ele a redefiniu! Na verdade, ao ler seu livro, percebi que muito do que nós professores achávamos que era uma roda era na verdade isso aqui:

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Pois é… o negócio anda, mas não é nada eficiente! Todos nós, professores de hebraico, reclamamos de (ou ao menos desejaríamos não ter) alunos que não conseguem reter o vocabulário, que não têm interesse no hebraico depois do primeiro ano, que não têm preparo linguístico adequado (isto é, não conhecem o português bem o suficiente) e várias outras coisas do tipo. Infelizmente, raramente paramos para avaliar nosso próprio ensino. Ao ler a gramática de Rocine e compará-la ao meu próprio trabalho, até mesmo muito do trabalho que está neste site, fui percebendo, com um frio cada vez mais gelado na barriga, que o que eu estava ensinando, em muitos casos, pode até ser danoso do ponto de vista pedagógico.

Permita-me explicar isso um pouco melhor: existem gramáticas tradicionais, que são todas as gramáticas desde Gesenius até as mais novas gramáticas de hebraico que existem hoje em dia, como as de Futato, Ross, Van Pelt e Practico, Kelley, etc. Uma gramática tradicional ensina coisas de uma forma um tanto sistemática: ela começa com letras, depois ensina substantivos, adjetivos, partículas e verbos. O ensino de verbos também segue uma ordem lógica, seja essa uma ordem (como eu prefiro) de verbos fortes primeiro e depois verbos fracos, ou a ordem de verbos Qal fortes e fracos, depois Nifal fortes e fracos, depois Piel fortes e fracos, etc. O ponto principal aqui é que todas as gramáticas em existência hoje em português seguem uma ordem lógica e sistemática com base em classificações históricas. Isto é, ensinamos ao aluno com ênfase no sistema da língua hebraica e esperamos que, ao aprender esse sistema, ele esteja preparado para conhecer a língua.

Mas agora deixa eu te fazer uma pergunta: quando você era bebê, como você aprendeu seu primeiro substantivo em português? Foi assim?

Nós não aprendemos português por conhecer, de uma vez, todo o sistema de opções possíveis na língua. Aprendemos, em primeiro lugar, por aquilo que era mais importante para nós. A primeira palavra do meu filho mais novo (Samuel) foi “papai” (ô orgulho!), a do meu filho mais velho (Joel) foi “mais” (ô gula!) e a da minha filha do meio (Laura) foi “bate palma” (é… ela queria elogios… não entendo meninas…). Mas meu filho mais novo não disse “papai, papais, mamãe, mamães”. Minha filha não disse “eu bato palmas, tu bates palmas, ele bate palma, nós batemos palmas, vós bateis palmas, eles batem palmas”. Acho que você entende o que estou tentando mostrar aqui… Se crianças aprendem todo um sistema linguístico sem nunca estudá-lo formalmente, porque pensamos que o estudo sistemático de hebraico é a melhor forma de aprendê-lo?

Acho que alguns de nós pensam que, quando chegamos aos nossos 20 ou 30 anos, nosso cérebro é transformado de tal maneira que não podemos mais aprender por aquilo que é relevante a nós, mas agora aprendemos somente por meio de tabelas memorizadas e categorias ocidentais impostas sobre um texto oriental. Como todos softwares de aprendizado de línguas atuais (Rosetta Stone, Duolingo, Memrise, etc.), a obra Hebraico Bíblico entende que isso não é verdade. Nós aprendemos línguas em todas as idades da mesma forma, porque Deus criou nosso cérebro assim.

Pois então a gramática de Rocine tenta aplicar muito daquilo que nós aprendemos no campo de estudos seculares sobre aquisição de línguas ao aprendizado do hebraico. Não digo que seu método seja totalmente imersivo ou perfeito, mas ele certamente não começa por um sistema imposto. Em vez disso, Rocine ensina o sistema da língua hebraica pela relevância. E note bem essa palavra – relevância – ela é chave aqui.

Como crianças, aprendemos a língua porque ela é relevante a nós. Joel, meu filho mais velho, aprendeu a palavra “mais” porque era importante para ele. Ele queria mais papinha, então aprendeu como pedir. Meu caçulinha, Samuel, tem pouco mais de um ano e não fala muita coisa, mas quando eu pergunto para ele se ele quer dormir no berço à noite, ele sacode a cabeça. Mesmo sem falar, ele já entende uma frase complexa: “Samuel, se você não quiser dormir no berço, você precisa ficar quietinho na cama e não sair, está bom?” Veja só! Um menino que não consegue falar ainda já entende um vocativo, uma frase condicional, um verbo subjuntivo, substantivos, objetos e uma pergunta retórica! E por quê? Porque é extremamente relevante para ele que ele durma na cama, como seus irmãos mais velhos. O berço é para bebês e ele, é claro, não é um bebê, mas um meninão de 16 meses! [Às vezes sinto pena dos meus filhos por terem um pai que analisa seu desenvolvimento linguístico todo dia….]

Portanto, Rocine já encara o aluno com o wayyiqtol na primeira lição, com o piel na segunda e verbos ה”‎ל a partir da terceira. Embora esse método de escolha de material possa parecer aleatório ou até mesmo perigosamente desleixado, ele parte do princípio que devemos “ensinar primeiro o mais necessário” (11), preparando assim o aluno a compreender questões de interpretação ao longo de toda a gramática. Portanto, ele escolheu ensinar o aluno com base naquilo que aparece mais e que ajudará o aluno a conhecer a base do sistema linguístico do hebraico. Isso não significa que ele não explica o sistema em si, mas que ele não ensina o hebraico com base na categorização lógica e regrada, mas de uma forma mais relevante ao aluno. Em cada lição (após a alfabetização), o aluno já aprende como ler e compreender alguns versículos bíblicos. Imagine se você pudesse já ler um pouco da Bíblia em hebraico na sua segunda semana de aula!

Assim, ao ensinar o aluno com base na relevância do material de estudo, alguns dos problemas destacados acima já são resolvidos. O aluno que aprende com base em relevância tem maior interesse no estudo da língua, retém aquilo que aprendeu com maior facilidade e deseja aprender mais. Portanto, mesmo que fira meu orgulho de ter criado uma roda ineficiente, só por esse princípio eu já recomendaria (e muito!) a gramática de Rocine. Contudo, existem alguns outros princípios de sua gramática que me convenceram que a minha roda não estava rodando muito bem… Portanto, aguardem mais partes dessa resenha!


3 comentários sobre “Resenha: Hebraico Bíblico, parte 1 (ou, como descobri que ainda não tínhamos inventado a roda…)

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