Como usar o hebraico para preparar um sermão, parte 1

Você já teve uma fratura exposta? Já viu em outra pessoa? Aposto que naquele momento, ninguém parou para observar a beleza branca do osso exposto, nem para admirar a elegância da estrutura óssea, muito menos para ponderar a perfeição do esqueleto humano. Naquela hora, talvez alguns desmaiaram, outros ligaram para o hospital, certamente alguém gritou, mas ninguém disse, “que osso bonito você tem!”.

Só de ver isso já me dá arrepios!

Da mesma forma, como já enfatizei nos posts anteriores desta série, o hebraico deveria ficar escondido, por trás da superfície e do corpo do sermão que você apresentará à sua congregação. Assim como o esqueleto serve como uma estrutura sólida sobre a qual os músculos, órgãos e pele se ajeitam, o hebraico e grego formam o suporte de todo o seu sermão. Mas não permita que esse esqueleto seja exposto à congregação!

Contudo, precisamos sim de um esqueleto, e um esqueleto forte, sobre o qual carregaremos o peso das palavras de Deus à congregação. Assim, no post de hoje, quero desenvolver algumas dicas de como usar o hebraico na preparação de um sermão.

Como usar o hebraico para preparar um sermão

Note que os pontos a seguir (neste e no próximo post) são dicas, e não regras, de como se pode usar o hebraico ao preparar um sermão (ou até um estudo bíblico). Assim, às vezes será necessário adaptar essas dicas à sua situação, dependendo do seu conhecimento do hebraico, da sua audiência ou até mesmo do tempo que você tem para preparar um sermão. Agora, em situações normais, recomendo a seguinte sequência ao estudar um texto no preparo de um sermão:

1 – Traduza todo o texto

Como faço isso? Eu sei que nem todos se sentem completamente confortáveis com o hebraico. Portanto, recomendo dois tipos de tradução, dependendo do seu nível de familiaridade com a língua:

  1. “Terminei o primeiro ano de hebraico”: se você já aprendeu o hebraico mas ainda não se sente muito confortável com a língua, escreva sua tradução por extenso num papel (ou janela do computador) à parte. Esse processo pode ser lento e demorado, mas te ajudará a prestar atenção em cada palavra e partícula.
  2. “Conheço o hebraico bem”: para quem já conhece o hebraico bem, é meio ineficiente parar a cada cinco palavras para escrever uma tradução em português. Nesse caso, eu recomendo que você apenas imprima o texto hebraico com espaço duplo (ou triplo), e escreva notas nas margens e nas entrelinhas de palavras ou análises gramaticais difíceis.

Como isso melhora meu entendimento do texto? Existem vários benefícios ao investir o tempo para ler e traduzir seu texto do hebraico ao português antes de preparar o sermão. Alguns deles incluem:

  • Ao ler o texto mais vagarosamente (mesmo o leitor mais experiente tropeçará aqui ou ali), você conseguirá notar coisas que não havia percebido ao lê-lo numa língua familiar.
  • Você poderá ver nuances no hebraico que não são transmitidas pela tradução.
  • Ao parar e pensar como se deve traduzir uma palavra ou expressão, você se preparará para transmitir o significado original do texto à sua igreja hoje.

A tradução é a parte mais essencial do uso das línguas originais. Realmente, de certa forma podemos dizer que o próprio sermão é uma prática de tradução. No sermão, o que o pregador tenta fazer é comunicar a mensagem de um texto escrito em outros tempos, outra cultura e outra língua, à sua audiência atual e contemporânea. Assim, o sermão é uma tradução num sentido mais amplo do que a mera tradução que fazemos do hebraico ao português, mas depende da mesma. Portanto, se você quiser usar o hebraico na preparação de seu sermão, comece com a tradução do texto.

2 – Leia e releia o texto em hebraico

Como faço isso? Depois de traduzir o texto, tente lê-lo de novo sem nenhuma “cola”. Às vezes será necessário lê-lo umas cinco ou seis vezes até você se sentir à vontade com o texto na língua original.

Como isso melhora meu entendimento do texto?

  • Ao ler o texto mais de uma vez, você notará certas coisas que não havia notado antes. Por exemplo, alguns dias atrás traduzi o livro de Malaquias. Contudo, foi somente mais tarde, ao ler o texto de novo, que notei uma coisa interessante com o nome Malaquias (מַלְאָכִי) em 1.1. Ele significa “meu mensageiro,” e aparece da mesma forma
    (מַלְאָכִי) em 3.1, no qual Deus promete que enviará “meu mensageiro, que preparará o caminho diante de mim”. Certamente há um trocadilho então entre o nome do profeta e o conceito do mensageiro de Deus em 3.1. É claro que será necessário estudar isso mais profundamente, mas eu não notaria esse trocadilho se não tivesse lido o texto de novo em hebraico.
  • Se a releitura do texto te ajuda a notar coisas que você não havia visto antes, é claro então que essa leitura melhorará sua tradução e refinará seu entendimento do texto também!
  • Ao ler o texto várias vezes, você aumentará sua compreensão do hebraico nesse texto e conseguirá compreender um pouco melhor o ritmo do texto original. Acho isso uma coisa importantíssima que, infelizmente, negligenciamos bastante. A maioria dos textos bíblicos foram escritos para serem lidos em voz audível. Existe um ritmo, uma cadência, que ajuda na compreensão do texto tanto para o leitor quanto para a audiência.

3 – Note e anote características literárias do texto

Como faço isso? Em primeiro lugar, você precisa ter um bom conhecimento dos tipos de recursos literários usados em textos hebraicos. Segue abaixo uma lista de coisas que podem estar presentes no seu texto:

  • Palavra-chave – uma palavra (ou raíz) chave é uma palavra que aparece várias vezes no texto, e em localizações importantes. Em geral, é mais fácil identificar essas palavras no texto hebraico. É possível que um texto tenha várias palavras-chaves, ou que repita uma frase inteira (veja, por exemplo, a repetição de “diz o Senhor dos Exércitos” em Malaquias 1.4, 6, 8, 9, 10, 11, 13, 14; 2.2, 4, 8, 16 etc.).
  • Paralelismo – textos poéticos, e às vezes textos narrativos, repetirão uma frase ou oração conceitualmente. Cabe ao intérprete (você, no caso) determinar o tipo de paralelismo e sua razão.
  • Trocadilhos – é quase impossível traduzir um trocadilho do hebraico ao português ou qualquer outra língua. Esses jogos de palavras podem misturar sons semelhantes ou palavras iguais com significados diferentes para comunicar um ponto importante.
  • Aliterações – às vezes um texto repetirá certas vogais ou consoantes para enfatizar um som ou palavra importante.
  • Outras organizações literárias – isso inclui organizações alfabéticas em livros poéticos, maneiras de se referir a um participante, quiasmos, ironias, etc.

Espero criar outros posts no futuro explicando ou mostrando exemplos de alguns desses recursos literários. Mas, no momento, note que eles podem ser identificados simplesmente por uma leitura cuidadosa do texto hebraico. Assim, recomendo que você imprima um texto hebraico, rabisque-o, encha-o de anotações e observações. O texto bíblico é rico não somente em teologia, mas também na literatura que expressa essa teologia!

Como isso melhora meu entendimento do texto? Espero que a resposta aqui seja óbvia. Esses recursos literários raramente poderão ser extraídos do texto traduzido. Assim, ao notar a riqueza literária do texto original, você poderá transmitir essa mesma riqueza no seu sermão. Lembre-se que você não precisa explicar todas as nuances dos recursos literários do texto hebraico no sermão – isso faz parte do esqueleto. Contudo, ao notar essas coisas, no seu sermão você poderá enfatizar as mesmas áreas que recebem um peso maior devido às conexões literárias que notamos em hebraico.

Por exemplo, no Salmo 149, existem duas palavras-chaves que são utilizadas de uma maneira no início do Salmo e, no final, de outra maneira. Veja só o texto abaixo:

No texto hebraico, fica claro que existe um contraste entre o louvor dado a Deus, o Rei e a Glória dos seus santos e a justiça exercida contra os reis e os “gloriosos” das nações que não temem a Deus. Contudo, em português, para traduzir o texto de uma forma que faça sentido, é necessário traduzir נִכְבְּדֵיהֶם como “seus nobres”. Ao notarmos esse paralelismo, podemos enfatizar o louvor do Rei eterno e de sua glória eterna em contraste ao reino efêmero dos grandes da terra, aqueles que serão julgados pelos santos de Deus, sem ter que apelar ao hebraico.

Portanto, sobre o esqueleto forte do texto de Salmo 149 em hebraico, poderemos encorpar o foco do texto sem, necessariamente, ter que exibir o hebraico ou nosso conhecimento do mesmo. Dessa forma, não colocaremos nossas congregações em dúvida quanto às suas traduções e nem daremos a aparência de soberba diante dos homens.


Esse post faz parte de uma série de posts sobre o uso do hebraico no sermão. Veja abaixo outros posts da série:

  1. Como NÃO usar o hebraico no sermão, parte 1
  2. Como NÃO usar o hebraico no sermão, parte 2
  3. Como usar o hebraico no sermão
  4. Como usar o hebraico para preparar um sermão, parte 1
  5. Como usar o hebraico para preparar um sermão, parte 2   (em breve!)

4 comentários sobre “Como usar o hebraico para preparar um sermão, parte 1

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