Minha jornada acadêmica: como Deus me guiou até aqui

OBS: Esse post tem pouquíssimo a ver com o hebraico em si, mas espero que sirva de encorajamento a outros alunos pelo Brasil afora.

Você já reparou quantas caveiras estão dispersas pelos retratos de acadêmicos da era medieval e da renascença? Essas caveiras são parte de um estilo artístico chamado vanitas, baseado na realidade efêmera da vida (חסד) exposta em Eclesiastes.

PierFrancescoCittadini_Vanitas

 

Hoje de manhã, li 1 Reis 9 e 10. Esses dois capítulos concluem uma seção no relato da vida de Salomão que mostra como Deus manteve suas promessas a Davi (2 Samuel 7) e também a Salomão (1 Reis 3). A próxima seção do livro (que começa em 1 Reis 11) lida com a pecaminosidade e idolatria de Salomão, que leva todo o reino a ser dividido. Ao ler esses capítulos do livro de 1 Reis e ao meditar na história de Salomão, fica claro que toda a prosperidade de Salomão e de Israel durante seu reino, inclusive a célebre sabedoria do rei, provêm de Deus. É claro que poderíamos dizer que Salomão teve condições perfeitas para reinar, já que seu pai, Davi, havia eliminado as ameaças estrangeiras e consolidado o reino. Poderíamos dizer também que Salomão tinha sabedoria que o permitiu fazer decisões corretas para o reino. Poderíamos até dizer que ele foi “sortudo” por conseguir se casar com a filha de Faraó e estabelecer uma aliança com o império Egípcio (1 Reis 3.1, 9.16). Contudo, todas essas bênçãos na vida de Salomão são frutos da providência histórica de Deus (1 Reis 3.11-14). No final, a vida de Salomão não seria nada, uma verdadeira vaidade (vanitas), se não fosse a mão de Deus. Memento mori.

Por que digo isso? Porque sei que o fato de eu ser hoje aluno de PhD no Westminster Theological Seminary só pode ser atribuído à providência de Deus. Com isso em mente, permita-me explicar porque escrevo o seguinte relato:

  1. Não escrevo minha história para me gabar das minhas realizações. De fato, errei bastante, mas Deus continuou sendo fiel.
  2. Não escrevo minha história para que você possa tentar “copiá-la”. Isso é impossível, porque Deus tem planos diferentes para cada um de nós.
  3. Escrevo minha história como testemunho do poder de Deus.
  4. Escrevo minha história como incentivo a você, cristão, e a mim mesmo, para que sirvamos a Deus com todas nossas forças.

O pequeno nerd

Nasci numa família crente. Dou graças a Deus por meus pais, tanto pelo exemplo de vida cristã como pela paixão que eles tiveram de ver seus filhos andando no caminho do Senhor. Espero que um dia meus filhos possam dizer o mesmo sobre mim e minha esposa.

Meu pai, Valdeci da Silva Santos, é pastor presbiteriano da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB). Deus o trouxe de uma casa humilde em Araguari, MG ao pastoreio em Pontalina, GO, Vitória, ES, e agora a São Paulo, SP. No meio de tudo isso, quando eu tinha 7 anos de idade, meu pai trouxe nossa família ao Reformed Theological Seminary (RTS) em Jackson, MS (EUA), onde ele cursou seu ThM em teologia sistemática e fez seu PhD em Estudos Interculturais. Quando voltamos ao Brasil, eu tinha 11 anos e havia aprendido inglês como um nativo. Na verdade, tive que readaptar ao português!

Eu sempre fui um nerd. Gostava de ler, brincar com Lego, fazer exercícios de matemática, etc. Queria ser um fisicista e estudar nanotecnologia.

Contudo, ao terminar o ensino médio, meu pai me incentivou a fazer algo antes de entrar de imediato na faculdade. Assim, uma das sugestões que ele deu foi de cursar um ano de estudos bíblicos no The Master’s University. Depois de orar bastante, achei que seria uma boa ideia, já que tinha certeza que haveriam vários ataques à minha fé quando começasse estudar as ciências exatas. Seria ótimo ter uma boa base bíblica antes de estudar a física e química numa universidade brasileira.

O nerd ambicioso

Master's
Prédio administrativo do Master’s University. Tá vendo esse caminho de concreto aí? Eu ajudei a construí-lo quando trabalhava na equipe de lanscaping da faculdade!

O programa de 1 ano no Master’s era estruturado como segue:

  • primeiro semestre
    • Teologia Sistemática 1
    • Novo Testamento 1
    • Antigo Testamento 1
    • Eletivo 1
    • Eletivo 2
  • segundo semestre
    • Teologia Sistemática 2
    • Novo Testamento 2
    • Antigo Testamento 2
    • Eletivo 3
    • Eletivo 4

Assim, quando olhei para o quadro de materias oferecidas, pensei: “O que há no Master’s que eu não posso aprender em nenhum outro lugar?” Orei bastante sobre o que fazer e decidi no final que a melhor maneira de realmente aprofundar meu conhecimento bíblico era de estudar grego 1 e 2 e hebraico 1 e 2. Pois é… eu tinha olhos maiores que a barriga…

Bom… digamos que eu não me lembro muito daquele ano… não dormi muito (acho que umas 4 horas por noite ou algo estúpido assim), e mesmo quando dormia, sonhava com letras e gramáticas das línguas bíblicas. Contudo, nessa experiência toda, Deus mudou meu coração e, depois de orar bastante, além de conversar com meus pais e outras pessoas que eu respeitava, decidi ficar no Master’s e cursar dois bacharelados: literatura inglesa e linguagens bíblicas (tá vendo? Olhos maiores que a barriga….). O novo plano era de eventualmente fazer um PhD em literatura e voltar ao Brasil para ser um professor crente na universidade.

Aliás, acho necessário explicar aqui que o bacharelado de linguagens bíblicas do Master’s era excelente! Aprendi e muito com meus professores lá. Nem todos continuam lá, mas sei que Dr. William Varner continua, e imagino que o programa continua sendo um dos melhores do mundo graças à sua didática.

Planos frustrados do nerd

No último ano da faculdade, revelei meus planos de ser professor de literatura inglesa numa faculdade brasileira e perguntei aos meus professores suas recomendações para meus próximos passos. Eles recomendaram que eu cursasse um mestrado bíblico e só depois entrasse num programa de PhD em crítica literária. Meus pais concordaram e assim fiz meu “application” e coloquei meus planos nas mãos de Deus.

Pausa para explicar o que é um application: nos EUA, em vez de fazer uma prova para entrar na faculdade ou escola superior, você precisa fazer um application. O application varia de escola para escola, mas é basicamente um conjunto de perguntas sobre quem você é e porque a escola deve te aceitar como aluno. O application inclui, entre outras coisas, histórico escolar, notas de SAT e/ou GRE, além do TOEFL para estrangeiros, redações, cv, etc.

Bom, fui aceito em alguns lugares diferentes, mas não obtive uma bolsa suficiente. Afinal das contas, ao terminar a faculdade, eu queria bancar minha própria educação, para não sobrecarregar meus pais. Quando estava quase terminando a faculdade, recebi uma carta do Reformed Theological Seminary (o mesmo seminário no qual meu pai estudou) dizendo que eles não somente me aceitaram como aluno, mas decidiram me dar uma bolsa integral para fazer meu MDiv!

RTS
Capela do RTS

Contudo, mesmo com tudo isso, eu hesitei em ir ao RTS. Minha relutância se dava porque eu tinha medo da responsabilidade pastoral, isso é, não me achava chamado ao pastoreio, mas o RTS treinava pastores. Ao continuar orando sobre isso, percebi que era meio bobo não ir a um lugar que me deu uma bolsa integral, e decidi confiar na providência de Deus.

Durante meu MDiv, Deus mais uma vez mudou meu coração e me mostrou claramente que estava sim me chamando ao pastoreio. Assim, meus planos foram frustrados, mas que bênção foi perder meus planos diante da orientação bem mais sábia de Deus! Trabalhei como pastor de uma plantação de igreja entre hispanos por três anos enquanto cursava meu MDiv, e aquilo que aprendi nesse tempo de estudos e prática pastoral foi de valor inestimável. O trabalho na igreja também me deu uma certa medida de estabilidade financeira para poder me casar, o que foi outra grande bênção de Deus!

Além do mais, durante meu tempo no RTS e conforme aconselhado por meu pai, enviei uma carta à Junta de Educação Teológica (JET) da Igreja Presbiteriana do Brasil, apenas para me apresentar a eles. Foi meio que um “oi, estou aqui e gostaria de algum dia dar aulas em alguns dos nossos seminários”. Durante o meu MDiv então, tentei manter meu contato com a IPB. Dessa forma, escrevi um artigo para a Fides Reformata, dei umas aulas sobre exegese em Juízes no seminário presbiteriano de Belo Horizonte, e mandava relatórios à JET. Foi também naquele tempo que começei a construir o curso de hebraico do EAD do Andrew Jumper e gravar as vídeo-aulas que hoje se encontram no Isso é Hebraico. Em tudo isso, não queria perder de vista a razão pelos meus estudos teológicos: servir a igreja brasileira.

O nerd entregado à sua nerdeza

Porém…. meus olhos continuavam maiores que a barriga. Fiz todos os cursos disponíveis no RTS que tinham algo a ver com a exegese. Assim, minhas notas nunca foram as melhores. Tirava frequentemente 8 (B), 9 (A-), às vezes 7 (C), e raramente um 10 (A). Mas nunca me importei mesmo com notas – eu queria era aprender, e se as notas não fossem as melhores, pelo menos eu me dava por satisfeito de ter aprendido algo. Mesmo assim, ao final do meu MDiv, estava cansadíssimo, e não queria estudar mais. O que queria mesmo era voltar ao Brasil e encontrar um lugar sossegado para pastorear e um seminário no qual poderia ensinar. Mas Deus tinha outros planos…

Antes do meu último ano de MDiv, voltei ao Brasil para visitar minha família, e aproveitei o tempo para conversar com certas pessoas envolvidas com o desenvolvimento da educação teológica reformada no Brasil. Ao conversar com eles e pedir seu conselho, tornei-me cada vez mais convencido de que eu deveria pelo menos tentar fazer um PhD e deixar a possibilidade nas mãos de Deus.

WTS
Não é Hogwarts! Esse aí é o prédio administrativo do WTS.

Demoraria muito relatar tudo que Deus fez por mim e minha família durante aquele útimo ano, mas vale dizer que, mais uma vez, por meio de sua providência, por meio de homens e mulheres santos na minha vida, e por meio de respostas a várias orações, Deus deixou claro a mim e minha esposa que seu desejo para minha vida era que eu viesse ao WTS para fazer um PhD em Novo Testamento. Uma dessas respostas à oração foi que recebi como mentor o Dr. Greg Beale, que já escreveu bastante sobre o uso do AT no NT, assim combinando com meu desejo de estudar não apenas um dos testamentos, mas os dois em união. Trabalho hoje como research assistant (assistente de pesquisa) dele e, se Deus quiser, terminarei minha dissertação em janeiro do ano que vem (2019). Adoro meu trabalho e meus estudos, e estou ansioso para voltar ao Brasil e continuar a servir a igreja da forma que Deus guiar. Dou graças a Ele por aquilo que já tem feito e espero que, no final, seja Ele quem confirme o trabalho das minhas mãos (Salmo 90.17), para que não se acabe em vaidade. Memento mori!


E aí? O que você achou? Tem alguma coisa a mais que você quer saber? Escreva sua pergunta/comentário abaixo.

Aliás, se você quiser dicas sobre como estudar teologia no exterior, veja o post do prof. João Paulo aqui.

 

 

9 comentários sobre “Minha jornada acadêmica: como Deus me guiou até aqui

  1. Silvio Gonçalves

    Gostei muito de ler um pouco de sua história, Danilo!
    Achei muito interessante e inspiradora também. Fiquei feliz em ler sobre o modo gracioso pelo qual Deus tem conduzido sua vida. Me deleito nisso, pois Deus também tem me abençoado através do seu trabalho.
    Espero ter o prazer de conhecê-lo pessoalmente, um dia.

    Abraço fraterno!

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  2. João Evangelista Garcia

    Amei o resumo da sua história, pois acredito que se você fosse falar mais a respeito da sua experiência, aqui, o espaço ficaria pequeno. Fiz um curso de teologia, 4 anos, foi só dois módulos de cada matéria. Mas, foi assim que tive os primeiros contatos com a língua hebraica e grega, foi o suficiente para amar mais ainda a Palavra de Deus.
    Espero em Deus que eu possa aprender essa matéria.
    João Evangelista.
    Ipatinga, MG.

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  3. Patrícia Sousa

    Eu estudei Teologia, fiz Mestrado e não sei se sigo ou não para o Doutorado. Penso nos estudos e na família, fico dividida. Pelo seu testemunho, acredito que preciso orar mais e me entregar àquilo que seja realmente a vontade de Deus em minha vida. Por outro lado, se ele me fez trilhar esse caminho sem eu jamais ter imaginado absolutamente nada sobre tudo isso, creio que Ele tenha um propósito.
    Meu irmão, só tenho a dizer: obrigada! Deus te abençoe!

    Curtido por 1 pessoa

  4. HÉRCULES LOBATO DA ROCHA

    Parabéns, Danilo.
    Me impressionou a sua disposição em submeter-se à orientação de Deus. Que o Senhor te conduza em triunfo. Espero ouvir/ler boas novas acerca do seu ministério no magistério teológico.

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